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"Fui dado como desaparecido e morto"

Depois de cuspido da minha viatura por causa de uma mina fui sequestrado pela Frelimo, estive em cativeiro, mas fugi.
Marta Martins Silva 3 de Abril de 2016 às 15:30
A descansar, depois de fugir do cativeiro
A descansar, depois de fugir do cativeiro FOTO: D.R.

E ui formado no Entroncamento o Pelotão de Apoio Direto (PAD) 827, cuja finalidade era dar apoio às tropas combatentes. O Pelotão embarcou na gare marítima de Alcântara a 6 de janeiro de 1965, precisamente no dia em que nasceu um filho meu, só que eu só tive conhecimento 36 dias depois quando cheguei a Moçambique, que era o nosso destino. Chegámos a Nacala a 6 de fevereiro de 1965, daqui embarcámos de comboio para Nampula, antes de embarcarmos para o destino final em comboio, Nova Freixo. Quatro meses mais tarde, com o aumento das minas no Niassa, foi destacada uma secção de seis homens para Vila Cabral, a nossa missão era apoiar todas as operações realizadas pelas nossas tropas.


APANHADO NO MATO

Precisamente no dia em que jogava Portugal e Coreia para o Campeonato Mundial de futebol em que Portugal ganhou 5-3 – só tive conhecimento passado um mês – recebi uma ordem do Comando do setor para me deslocar a caminho de Maniamba, para evacuar com o meu pronto socorro uma viatura berliet que tinha sido minada. A poucos quilómetros do local a minha própria viatura acionou uma mina e eu fui cuspido para o capim, felizmente só com um pé torcido ali fiquei. Ninguém deu pela minha falta, foi tudo embora no meio daquela poeirada e fumo. E eu a pensar: ‘Já não vejo o filho que nasceu’.

Tudo isto aconteceu pelas 10h00, pelas 18h00 estava encostado a um embondeiro perto da picada: ouvi vozes e fiquei todo contente pensando que vinham à minha procura. Mas qual foi o meu espanto quando vi uma mulata com boina, calças e uma pistola metralhadora starling, acompanhada por quatro homens. Depois vim a saber que a mulher era argelina e os homens da Frelimo, vinham fazer o reconhecimento. Dirigi-me a eles porque não adiantava nada fugir. Eu ainda tinha o cinto com os carregadores – tiraram-me o cinto e disseram-me para os seguir. Ligaram-me o pé, deram-me uma lata de pera em calda sul-africana e Coca-Cola fui muito bem tratado: deram-me uma esteira de palha para dormir, um repelente para os mosquitos e até um vigia a guardar-me na gruta.

Quando o sol estava a nascer apareceram seis homens camuflados que falavam português, eu disse que não era combatente, que era especialista mecânico.


O chefe deles era branco, tinha desertado do Exército português em 1963 e eu disse que também estava farto e que não queria voltar. Ele acreditou e comecei a andar à vontade por lá. Até que um dia de madrugada decidi que tinha de tentar fugir. Sabia que Vila Cabral ficava para poente e orientei-me pelo sol, passei duas noites em cima de árvores por causa da bicharada, o meu objetivo era chegar a uma picada onde me conseguiria orientar melhor. Segui o trilho de um Land Rover e várias horas depois cheguei a uma missão que era holandesa na região de Macalage e eles entraram em contacto com o meu comando; no dia seguinte veio um grupo de combate buscar-me. Fui recebido pelo comandante do setor Vila Cabral com grande abraço e recompensado com 30 dias de licença em Portugal, onde pude finalmente conhecer o filho que cheguei a perder a esperança de algum dia conhecer. Fui dado como desaparecido, morto e desertor mas felizmente voltei.
 

António Gonçalves

 

Comissão  

Moçambique (1965-67)

Força  

Pelotão de Apoio Direto 827


Atualidade

Tem 79 anos, é casado, tem quatro filhos e sete netos. Vive em Abrantes.

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