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“Havia mortos e feridos. Só eu estava bem”

No início da década de 70 vi a guerra de perto na Guiné. Em terra muito pobre, de gente mais pobre ainda, vi matar e vi morrer.
5 de Setembro de 2010 às 00:00
A plantar alfaces, por brincadeira. Um dos ‘agricultores’ era regente agrícola
A plantar alfaces, por brincadeira. Um dos ‘agricultores’ era regente agrícola FOTO: Direitos reservados

Fui mobilizado em rendição individual para uma companhia de nativos. Cheguei no dia 21 de Julho de 1970. Guiné era uma província muito pobre. Bissau, a capital, era uma cidade esburacada, suja e para qualquer lado que olhasse só via fardas militares.

No dia 2 Agosto estava em Canjadude e, no dia 3, uma viatura que integrava uma coluna militar para Nova Lamego ( Gabu), fez explodir uma mina anticarro da qual resultaram dois mortos e vários feridos. De entre os feridos, destaco o ex-furriel Moura, que tinha chegado comigo na véspera. Foi um choque terrível. Mas este não foi o único dia trágico.

DIAS TERRÍVEIS

A noite de 15 de Novembro desse ano, quando me encontrava em Nova Lamego, destacado com o pelotão, foi muito violenta. A nível de tropa e população civil tivemos alguns mortos e imensos feridos. Recordo que acompanhei à enfermaria um soldado e só deparava com feridos deitados no chão. Também não posso esquecer quando me encontrava em operação no Chéche.

Por volta das 20 horas fomos atacados com armas ligeiras e roquetes. Por pouco tempo. Mas próximo da meia-noite tivemos fogo intenso, agora com morteiros e canhões. As granadas rebentavam por todo o lado. Perto encontrava-se uma viatura com combustível. Receei que se fosse atingida. Seria uma catástrofe. Felizmente não aconteceu nada. Neste ataque, apesar de fortíssimo, tivemos apenas um morto. Por volta das quatro horas da manhã sofremos novo ataque, em tudo semelhante ao da meia-noite.

Meses mais tarde, em Agosto de 1971, quando nos preparávamos para entrar no aquartelamento, sofremos uma emboscada. Salifo Embaló, o soldado africano que ia à minha frente, levou um tiro na cabeça e caiu como se fosse uma cobra – enroscado. Atrás de mim, outros dois soldados gritavam com dores. Tinham sido atingidos pelo inimigo. Só havia mortos e feridos. Eu era o único que estava bem.

Via na minha frente, a escassos metros, as balas do inimigo. Calei a minha arma. Queria que o inimigo pensasse que me tinha abatido. Precupava-me também em não me deixar apanhar, corpo a corpo, podia ser esfaqueado. A noite estava clara. Podia ser surpreendido pelo inimigo. Os primeiros minutos foram difíceis. Para me proteger e proteger os outros tive de manter a calma.

Recordo que, na noite de 11 de Fevereiro de 1971, no ataque da meia-noite, caiu próximo de mim uma granada de morteiro. Encheu-me de terra. Larguei a arma e percorri o corpo com as mãos para me certificar se tinha sido atingido por algum estilhaço. Com toda a sorte do mundo, saí ileso.

A guerra é o escárnio da vida. O ódio está sempre presente. Mata--se sem se saber bem porquê.

AMIZADES

Lembro estas situações sem rancor ou ódio, embora não concordasse com a guerra. Tive até momentos que lembro com alguma saudade. Lembro os soldados africanos, de quem gostei muito. Ao que parece, a maioria foi morta após a saída dos portugueses.

Fazem-se irmãos? Talvez. Há uma aproximação muito grande. Em Canjadude, onde estive, vivíamos um clima de verdadeira amizade fraterna. Aqui quero realçar o comandante da companhia, capitão Arnaldo Costeira – militar de carreira, humano e interessado pelos problemas dos outros. Lembro-me de que permitiu que um furriel mecânico, castigado numa outra companhia e colocado na CCaç. 5, recebesse a visita da esposa.

A minha guerra terminou no dia 14 de Julho de 1972. Regressei num avião do exército.

PERFIL

Nome: Alberto Pereira Caetano

Comissão: Guiné (1970/72)

Unidade: Companhia Caçadores nº 5

Actualidade: 62 anos, residente em Marco de Canaveses, reformado da Banca. Continua a elaborar pareceres na sua área profissional. É casado e com dois filhos.

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