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Jaime Nogueira Pinto: "O populismo é a popularidade dos outros"

Em vez de os amaldiçoar, Jaime Nogueira Pinto fez um livro sobre o Brexit e Trump, a versão má do ‘Grande Gatsby’
Leonardo Ralha 17 de Dezembro de 2017 às 15:00
Jaime Nogueira Pinto
Jaime Nogueira Pinto FOTO: Pedro Catarino

Foi a vitória de Emmanuel Macron, embalado pela ‘Ode à Alegria’ de Beethoven, que serviu de impulso para Jaime Nogueira Pinto escrever o livro ‘Bárbaros e Iluminados’ (D. Quixote), análise dos motivos das vitórias populistas que agitaram a política dos dois lados do Atlântico.

Vê motivos para temer o Mundo em que os seus netos vão crescer?

Todos os mundos são difíceis e perigosos, mas também agradáveis e bonitos. A pergunta faria mais sentido nos anos 30, embora as pessoas não soubessem que iria suceder a II Guerra Mundial. Temos ameaças complicadas, nem diretamente políticas. O armamento nuclear e bacteriológico irá tornar o Mundo cada vez mais perigoso.

No limite, os seus avós também não podiam prever aquilo que iria ver ao longo da sua vida…

Enfrentei, como todos, vicissitudes e tragédias pessoais, mas a minha vida não tem o lado apocalíptico que teve a dos japoneses de Hiroshima, a dos alemães de Dresden ou a dos judeus de Varsóvia. Em Portugal não tivemos destruição em massa e desumanização absoluta. Por sermos uma nação muito antiga, por estarmos afastados dos centros de conflitualidade europeia e por ter havido uma política realista e inteligente que, sem desonrar o País, o poupou da II Guerra Mundial.

Entende quem vê apocalipse em fenómenos como o Brexit ou a eleição de Donald Trump?

Mexe-lhes com o modelo que conhecem e não têm agilidade mental para pensar que tudo muda. É natural que 25 anos após o fim da Guerra Fria haja ruturas. O Brexit e Trump rompem com o paradigma dos dois partidos, um mais à direita e outro mais à esquerda. Também porque a economia tem andado à solta, com a possibilidade de transferir milhões em segundos, e a virtualidade do capital, na base da crise de 2007-2008, o que gera naturais reações.

Cita Roger Scruton, que descreve populismo como a palavra usada pela esquerda "para se referir ao povo quando o povo não a escuta". É uma definição redutora?

Há uma de que gosto mais: o populismo é a popularidade dos outros. Os partidos instalados chamam populista a tudo que foge aos seus cânones. O Podemos e o Syrisa serão mais depressa de esquerda; a Frente Nacional ou a Alternativa para a Alemanha mais depressa de direita. Ou melhor, aquilo a que chamam populistas de direita têm referências tradicionais, como nação, família, religião e costumes conservadores; os da esquerda têm sobretudo a rutura com o capitalismo e são o inverso em costumes e fronteiras, embora isso esteja a mudar. Li uma entrevista de Francisco Louçã em que ele levanta a questão das fronteiras enquanto limite ao capital financeiro errático e errante que ninguém sabe quem comanda. É um sentimento que se encontra na esquerda e na direita.

Arranca o livro com a vitória de Emmanuel Macron, que considera ter um populismo centrista.

E que se pretende iluminado. Macron tem a habilidade de aparecer como completamente de fora, sendo de dentro. Andou na Escola Nacional de Administração, trabalhou no Banco Rothschild, e foi ministro socialista. Não pode ser mais sistema, mas deu uma cambalhota e ganhou o referendo anti-Le Pen. Qualquer outro candidato à presidência francesa gostaria de estar no seu lugar, pois havia uma base de rejeição de Marine Le Pen, que passaria à segunda volta.

O que falta acontecer em França para Marine Le Pen vencer?

O novo líder dos Republicanos está a fazer aquilo que no passado sempre barrou os Le Pen, que é adotar a política da Frente Nacional. Faz uma declaração muito firme nos aspetos nacionais, tradicionais e anti-emigração, sendo claro que a direita tradicional é por vezes mais conservadora do que Marine Le Pen, que em matérias sociais tem posições de esquerda. Aliás, o que caracteriza os novos movimentos populistas, na direita e na esquerda, é que não põem em causa o voto popular, embora se possa dizer que têm veleidades autoritárias e lideranças altamente personalizadas.

Qual foi a madrugada eleitoral que o surpreendeu mais: a do Brexit ou a da vitória de Trump?

A do Brexit. Não achei a vitória de Trump tão estranha porque, olhando com atenção para as sondagens e para os melhores sites, Trump estava muito colado a Clinton e havia uma curva em que ela estava a baixar e ele estava a subir.

Sendo o Brexit aquilo a que chama o primeiro sinal de revolta contra a mundialização do capital, qual poderá ser o segundo sinal?

Já apareceram, mesmo no seio da Comissão Europeia, sinais de que é preciso mudar. Embora um dos vícios do sistema seja que não procura as razões e, em vez disso, amaldiçoa as consequências. A fuga para a frente de tentar avançar mais depressa, num momento em que a federação europeia e a abolição das fronteiras está a ser rejeitada, parece um bocadinho suicidária.

Como quando Hillary Clinton insultou o eleitorado que deu a vitória a Trump…

Quando lhes chamou deploráveis. Ela era uma péssima candidata, pois personificava aquilo que as pessoas não querem. Uma mistura de progressismo intelectual e nos costumes com uma avidez pelo dinheiro e submissão a quem o tem. Uma das coisas que a liquida é o escândalo da Fundação Clinton, pois a secretária de Estado recebia donativos de países com que os EUA têm relações. É como se o ministro dos Negócios Estrangeiros português tivesse uma fundação familiar à qual os PALOP dessem muito dinheiro. Trump tem os votos normais dos republicanos, mas vence os cinco estados do ‘Rust Belt’, que sofrem com a decadência industrial e deslocalização de empregos. É a América zangada.

Na perspetiva dos iluminados, foi por aí que os bárbaros entraram?

E estão a entrar noutros sítios. As grandes vítimas da globalização são as classes médias-baixas e trabalhadores dos países desenvolvidos. Também a classe média, mas sobretudo em questões morais e ideológicas. Há uma revolta contra o politicamente correto que às vezes é disfarçada, por receio, mas depois hostilizam-no através do voto, que é secreto. A ideia na base de todos os populismos é que o poder do povo foi confiscado pelas classes político- -económicas instaladas – descrição também um bocado apocalíptica -, altamente corruptas e cúmplices, que funcionam nos mesmos círculos e têm grande poder sobre os media e o dinheiro. Os populistas dizem que vão restaurar o poder ao povo.

O curioso é que nos EUA o restaurador que encontraram é um multimilionário.

Mas é fora do sistema. Ser multimilionário é o que lhe permite, ao contrário de Clinton, mexer-se à vontade. E socialmente é marginal. Não faz parte daquela elite…

Dos bem-pensantes?

E da elite social americana. É de Queens, não é ‘old money’. O Trump poderia ser um personagem do Scott Fitzgerald.

Uma espécie de Grande Gatsby?

Trump é um Gatsby mau. É um cruzamento de Jay Gatsby com Buchanan, o marido da Daisy. Até é mais parecido com o marido da Daisy, obcecado com as raças amarelas.

A globalização é tão potencialmente perigosa quanto o comunismo e o nazismo?

Há que ter uma certa racionalidade. Alguns dizem que a Alemanha está a conseguir o que não conseguiu com Hitler, mas é diferente dominar um continente invadindo-o com tanques do que vendendo maquinetas. Certo é que a Ásia ganhou com a globalização e a China foi a grande beneficiária, criando uma classe média significativa, tal como se fez chegar eletrodomésticos e brinquedos baratos a pessoas que antes não os podiam comprar.

A troca do proletariado por uma federação de minorias caracteriza a esquerda ocidental?

É uma dialética de explorados que foi manejada por pessoas que viviam no Ocidente, e falavam de um marxismo livre da União Soviética. Foram à procura dessa coleção de minorias que, no seu conjunto, até são maioria. E a burguesia de que falava Marx passa a ser homens brancos, nem muito velhos nem muito novos, heterossexuais, e que não padecem de nenhuma diminuição específica. Passam a ser o grupo que não pode afirmar identidade nenhuma, pois essa afirmação é vista como racismo. E muita gente está a revoltar-se contra isto. Na América é assim que se dá a vitória de Trump.

No livro reproduz a carta de Engels para Marx em que este se alegra por ambos serem demasiado velhos para pagarem tributo físico se homossexuais tomarem o poder...

Na História das Ideias as pessoas com cartilhas ideológicas rígidas fazem sempre a reconversão do passado e têm a ideia de que há blocos de bons e de maus. Achei a carta curiosa. Nesse aspeto Marx era um conservador, o que não invalida o seu pensamento, que no contexto da globalização voltou a ter aspetos analíticos muito interessantes.

O que leva a que Portugal escape até agora à maré do populismo?

Uma das razões tem a ver com o facto de a direita ter governado autoritariamente durante meio século. Isso gerou em toda a classe política uma rejeição do tipo de valores do que poderia ser um populismo de direita. Há medo de assumir esses valores por se achar que serão ressurreições do salazarismo ou do fascismo, como na esquerda lhe chamam. E não temos algumas das razões que levaram ao aparecimento do populismo na Europa. Muçulmanos haverá uns 50 mil, bem integrados na vida económica e social. E as pessoas que poderiam criar esses partidos desinteressaram-se da política partidária.

A grande oportunidade do populismo foi com Spínola, quando quase um milhão de portugueses voltaram de África?

Spínola não tinha uma estratégia política. Foi uma figura de transição, parecida com a de Gomes da Costa. Ficou enquanto deu jeito à esquerda militar, por ser ligado à defesa do império, mas foi afastado logo que deixou de ser conveniente. Quanto aos retornados do Ultramar eram dominados pela necessidade de sobrevivência e de reinserção. Foram postos em fuga de África, para grande gáudio de muita gente.

Algo que lhes dava razões para se sentirem deserdados…

Dava, mas não tinham unidade política. Caso tivessem, talvez as coisas se tivessem passado de outra forma. Mesmo em África. É preciso ver que o Estado Novo despolitizou os seus partidários. E a direita portuguesa pagou muito caro.

Marcelo é demasiado constitucionalista para ser um populista?

Tem feito bem – e penso que genuinamente – o elemento de ligação, de estar presente nas catástrofes. É um conceito quase ‘rainha de Inglaterra’, estar junto da população. É popular. Volto a insistir: as pessoas que não gostam da popularidade dos outros chamam-lhe populismo, de forma depreciativa. A luta política e ideológica vive muito de encontrar palavras e fórmulas, boas ou más.

Admite que venha a haver um movimento populista em Portugal?

Admito. Portugal está numa certa periferia e é natural que movimentos na Europa e nos EUA acabem por ter repercussões. E sem dúvida que falta um partido ou uma força política de direita, ainda que obviamente integrada na democracia e que não seja revolucionária. Uma força de direita que tenha o elemento de defesa da identidade nacional, que tenha valores conservadores e defenda uma política atenta às realidades do mercado mas com um forte sentido de justiça social.

BI

Jaime Nogueira Pinto nasceu no Porto há 71 anos, e começou a envolver-se na política quando estudava na Faculdade de Direito de Lisboa. Voluntário para a Guerra do Ultramar, embarcou para Angola depois do 25 de Abril e quando já era casado com Maria José Nogueira Pinto. Teve de fugir com a mulher para a África do Sul, e ao voltar a Portugal foi diretor de ‘O Século’ e administrador da editora Bertrand. Doutorado em Ciência Política, o professor universitário e especialista em aconselhamento estratégico e segurança é autor de vários livros. Viúvo desde 2011, tem três filhos e nove netos.

NO ESCRITÓRIO

Rodeado por milhares de livros, que não só ocupam as estantes do escritório como já reclamaram uma divisão contígua e se fazem empilhar, numa aparente desorganização que faz sentido para quem assim os arrumou, Jaime Nogueira Pinto destaca ‘Jeux Africains’, romance de Ernst Jünger sobre um jovem alemão que se alista na Legião Estrangeira. Não por acaso, até pediu emprestado o título para o seu livro ‘Jogos Africanos’.

Fotos de família não poderiam faltar no escritório de quem tem três filhos e nove netos. Mas também são muitos os retratos com a mulher. Maria José Nogueira Pinto, que morreu em 2011.

Cinéfilo, tem filmes a disputarem espaço aos livros. Entre os seus autores favoritos aponta o italiano Luchino Visconti, realizador de ‘O Leopardo’ ou ‘Morte em Veneza’.

As canetas de tinta permanente nunca podem ficar longe de quem mantém o hábito de escrever e emendar à mão. Mesmo sem ser avesso às novas tecnologias, como já esclareceu, a tinta no papel em branco é marca de um conservador.
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