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O amor do outro mundo entre o descarregador e a investigadora

Há 18 anos o CM trouxe a história de um amor improvável entre um setubalense analfabeto e uma francesa autora de dezenas de livros. Graças a ela, que o incentivou, começou a pintar: a notícia dava conta das exposições (e do sucesso) das obras de José Miguel, que se multiplicavam em Paris.
24 de Julho de 2011 às 00:00
Quando a conheceu começou a pintar. Já participou em exposições em vários pontos da Europa
Quando a conheceu começou a pintar. Já participou em exposições em vários pontos da Europa FOTO: Carlos Santos, A-Agosto.com

O coração já não ia para novo quando se tomaram de amores na Margem Sul do Tejo. Ele, um (des)carregador de peixe, analfabeto, nascido e criado no Bairro dos 4 Caminhos, em Setúbal. Ela, uma investigadora e historiadora, francesa, que se deslocara a Portugal para estudar os problemas de coluna nas pessoas com a profissão dele.

Foi em 1980 que se conheceram e em 1993 que foram notícia, quando José Miguel, então com 62 anos, incentivado por Noelle Pérez, com 67 – com quem viria a casar dois anos depois – somava sucessos em exposições de pintura em Paris.

"Se estou vivo hoje, a ela agradeço. Se tenho alguma coisa foi por causa dela. Eu, um analfabeto, quando a conheci só queria taberna. O mais longe que tinha ido era até Lisboa". É de amor (e de valor) a declaração acima, dita agora, em 2011, aos 80 anos dele e 85 dela.

PINTURA NAIF

José Miguel já não é descarregador de peixe na terra que o viu criar-se. Largou essa labuta depois do casamento. É pintor naïf em Paris, onde vivem "durante o ano lectivo"; nos meses de sol fogem para Setúbal, terra onde se enamoraram. Está agora a preparar uma exposição em Itália, onde as suas pinturas já estiveram no passado.

"Aprendemos muito um com o outro" – diz Noelle, num português cauteloso, que o marido ensinou. Ele continua sem saber ler – ela passa os dias a escrever. Vivem do trabalho de ambos. "Para mim tudo o que ela faz está bem, para ela tudo o que eu faço está bem". Já não se fazem histórias assim.

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