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O banqueiro destronado pelos mercados

‘O fazedor de dinheiro’ - como lhe chamam os amigos - saiu de cena. Sem o Banco Privado Português, João Rendeiro alimenta a anterior rotina: a família, a arte e as idas ao ginásio.
7 de Dezembro de 2008 às 00:00
João Rendeiro renunciou no último dia 29
João Rendeiro renunciou no último dia 29 FOTO: Miguel Baltazar

Os amigos apelidaram o banqueiro dos ricos de ‘the make money man’ (‘o fazedor de dinheir, em tradução livre). Dia 29 do mês passado, João Rendeiro renunciou à presidência do Banco Privado Português (BPP), deixando-o em dificuldades financeiras. À Domingo, o maior accionista (detentor de 12,5%) e fundador desta instituição bancária mostrou-se tranquilo. 'Agora, importa é que os interesses dos clientes estejam salvaguardados. Penso que as contas dos depositantes nunca correram risco. Embora a situação de alarme que se criou, fruto de alguma má informação, certamente causou preocupação.' Renunciou mas não se afastou. Acrescenta o advogado José Miguel Júdice que Rendeiro 'já não ocupava funções executivas no BPP há algum tempo'. Segundo fonte próxima, a sua 'capacidade de trabalho fantástica' levava a jornadas de 12 horas. Até almoçava no banco. Ainda no dia a seguir a comunicar, por carta, ao Banco de Portugal a crise financeira do BPP, Rendeiro não quis perder, a 25 de Novembro, o Conselho Consultivo da associação Empresários Pela Inclusão Social, onde é o presidente da direcção. A EPIS combate o abandono e o insucesso escolar de crianças a viver em meios desfavorecidos. Só que na última semana, os hábitos dele mudaram num ápice só comparável à volatilidade dos mercados financeiros. 'Eu agora preciso de ter algum descanso', confessa. 'Tenho estado em casa. Mas há muita coisa que tenho para fazer. Mantenho a minha rotina essencial normal, de exercício físico pela manhã [no Clube VII, no Parque Eduardo VII, em Lisboa]... Não mudou muito com a excepção da parte do banco. Continuo vivo e a preparar o futuro, que seja útil à sociedade portuguesa.'

Diz o seu amigo Júdice que ele é uma pessoa muito carismática. 'Acho que as pessoas [no banco] sentem a falta dele', acrescenta o presidente da mesa da assembleia geral do BPP. 'É um homem com coragem e determinação, com certeza que vai dar a volta.' Em 48 horas, foi aprovado o saneamento do banco e o novo ‘chairman’ é Fernando Adão da Fonseca, que estava no BCP.

A fortuna de Rendeiro começou nos anos 90 quando vendeu a Gestifundo – um fundo de investimentos para o mercado de capitais, criado em 1986, com Helena Gray de Castro e Raul Marques, que tinha conhecido na sua passagem pela multinacional McKinsey – ao Totta, que era presidido por José Roquette. Tinha investido o equivalente a 25 mil euros e vendeu por 15 milhões, além de que ficou com um bom cargo e bom ordenado no Totta – permaneceu lá cinco anos. No final, voltou a leccionar na faculdade. Até que um aluno de Marketing o surpreendeu com uma boa ideia. Lançar a marca de águas à qual chamaram Frize. Depois do sucesso, vendeu-a à Compal. Rendeiro já pensava no seu próprio banco. Surgira a rara oportunidade de comprar, ao BCP, a Incofina. Para tal, juntou um grupo sólido de investidores, entre eles Pinto Balsemão, os Vaz Guedes e Joe Berardo, que já se afastou. Nasce o BPP, que tinha apenas os ricos na lista de clientes.

'Os meus negócios estavam exclusivamente centrados no banco', diz Rendeiro. À parte disso, preside também à Fundação Luso-Brasileira, além de que a arte é uma ocupação permanente. No fim dos anos 90 tornou-se conhecedor de arte, depois apaixonado e, agora, coleccionador. A Ellipse Foundation nasceu 'quando decidiu criar um projecto mais amplo, com uma grande colecção de arte contemporânea internacional', explica Pedro Lapa, curador da Ellipse. Investiu cinco milhões de euros. Tem cerca de 900 obras. Rendeiro foi mecenas do Museu do Chiado e aí conheceu Lapa, o director. Até o jardim da sua casa foi projectado para receber esculturas. Rendeiro vive no condomínio de luxo no Estoril, Quinta Patiño, numa casa inaugurada com Mariza ao vivo no dia em que ele completou 50 anos.

O empresário criou várias paixões. É um dos 11 sócios do Eleven, um restaurante no Parque Eduardo VII. O gastrónomo e produtor vitivinícola, José Bento dos Santos, sócio também do Eleven, reconhece em Rendeiro o gosto do entendido por vinhos.

João Manuel Oliveira Rendeiro nasceu em Lisboa há 56 anos, fruto de uma família natural da terra da emigração: a Murtosa, Aveiro. Mas foi em Campo de Ourique, na capital, que o pai abriu uma sapataria. A mãe geria os imóveis que compravam, com as poupanças, e arrendavam. Fez escola nos Salesianos, em Campo de Ourique, e nos liceus Pedro Nunes e D. João de Castro. Sendo estabelecimentos de ensino frequentados por filhos de famílias ‘classe alta’, Rendeiro desfasava. O seu objectivo era ser o melhor aluno da turma. Assim, certamente iria sobressair. Como filho de católicos, frequentou a Igreja até aos 18.

Se chegou a banqueiro foi porque subiu a pulso. Antes de entrar em Economia começou por fazer inquéritos de rua. 'Nutria interesse pelos negócios', pode ler-se na sua biografia ‘João Rendeiro – Testemunhos de um Banqueiro’, de Myriam Gaspar, da Deplano. Foi depois para Inglaterra, no seu Fiat 128, dado pelos pais aos 18 anos, doutorar--se. Nessa altura, graças às viagens, começou a esquiar, na Suíça.

Namorou com Maria de Jesus da Silva Ramos Matos desde sempre. Aos 21 anos, casaram. É inegável a ambição de Rendeiro, mas desde sempre quis vencer pela base do conhecimento. Fez então um pacto com Maria: 'o acordo era eu estudar e ela segurar as pontas' – lê-se na biografia. Ela era secretária e tradutora de inglês e de francês. Os amigos sabem que ele é optimista e que não se deixa vencer. Rendeiro está na mó de baixo mas, nem por um minuto, deixou de estar ao lado de Maria. 'Não podia ter uma mulher mais amiga do que tenho.'

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