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O emigrante legionário

"Sabe que o lema dos Comandos é um verso da Eneida de Virgílio."
Victor Bandarra 18 de Setembro de 2016 às 01:45

Baixinho e entroncado, seco que nem carapau, o rapaz de camuflado e boina verde cumpre o ritual de segurança no porto de Kinshasa. Carrega uma metralhadora quase do seu tamanho. Fala um francês macarrónico mas imperativo. Até que deixa escapar o sotaque algarvio. "Sã portugueses?"

Sérgio integra a companhia da Legião Estrangeira que a França havia mandado para o Zaire, no início dos anos 90. Parte do exército de Mobutu, sem pilim face à inflação louca, rebela-se e toma várias regiões do país. Kinshasa é um pandemónio.

A Bélgica envia os pára-comandos, Portugal envia um avião C-130 e 6 elementos dos GOE. O legionário Sérgio (nome de guerra) só sabe que os pára-comandos belgas são "uns betinhos". Rivalidades. Sorridente, Sérgio mostra saberes de latim. Sabe que o lema dos Comandos é um verso da Eneida de Virgílio: Audaces Fortuna Juvat (A sorte protege os audazes). E cita também o lema da Legião: "Legio Patria Nostra" (A Legião é a nossa Pátria).

A mítica Legião Estrangeira, aberta a todas as nacionalidades, não faz grandes perguntas, apenas grandes exigências. Mas a Legião tem como Código de Honra: "A missão é sagrada! Tu a executarás até ao fim, a qualquer preço!" Recentemente, dadas as missões supostamente humanitárias da Legião no quadro da ONU, o "...a qualquer preço" foi trocado por "...no respeito das leis, costumes da guerra, convenções internacionais e, se necessário, com o risco da própria vida!"

É tema de discussão a morte de dois rapazes que iniciavam o curso de Comandos. Por via da selecção, as chamadas "tropas especiais" têm sempre uma taxa de rejeição de 70/80 por cento. Para avaliação dos candidatos, supõe-se a presença de oficiais e técnicos profissionais. Pergunta necessária: será que quem aguenta mais meia hora sem beber água vai ser melhor comando do que um outro que não aguenta tanto tempo? Talvez sim, provavelmente não!

Naquele dia, em Kinshasa, Sérgio explica que foi recusado no curso de Comandos em Portugal. Junto ao cais, avança devagar um Mercedes com matrícula diplomática. Sérgio levanta a mão, dando ordem de paragem. O Mercedes não pára. O português não hesita um segundo – dispara uma rajada para a frente do carrão. Lá de dentro saltam 3 homens engravatados e tremelicantes.

Outros legionários fazem logo a revista da ordem. Sérgio volta à conversa. "Pois é assim! Onde é que eu ia?" E explica os motivos da saída abrupta do curso de Comandos. "Um instrutor pregou-me uma bofetada! Levou logo um ensaio de porrada!" Eis a prova de que, já nos anos 90, os jovens portugueses, inclusive potenciais comandos, eram obrigados a ir ganhar a vida no estrangeiro!

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