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Correio da Manhã

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Pietro Aretino: o flagelo dos príncipes

Pena afiada expunha os vícios públicos e privados dos poderosos
João Pedro Ferreira 11 de Agosto de 2019 às 06:00

Pietro Aretino (1492-1556) foi um poeta, dramaturgo e satirista que usou o seu talento literário para ganhar dinheiro e influência política na Itália do Renascimento.

Saiu-se particularmente bem em Roma e em Veneza. Protegido por papas, foi pago ao mesmo tempo pelo imperador Carlos V da Alemanha e pelo rei Francisco I de França, que se guerreavam na península itálica pelo domínio da Europa.

Enriqueceu à custa dos poderosos que tanto adulava como ridicularizava. O seu contemporâneo Ariosto pôs-lhe a alcunha de ‘o flagelo dos príncipes’ – Pietro não hesitava em extorquir dinheiro a nobres e cardeais, sob a ameaça de fazer deles o alvo da sua pena afiada, expondo-lhes os vícios sem dó nem piedade.

E ele conhecia-lhes bem a intimidade e as preferências sexuais, que descreveu nos ‘Sonetos Luxuriosos’, um clássico do erotismo renascentista.

Natural de Arezzo, na Toscânia, chegou jovem a Roma onde, aos 24 anos, escreveu um panfleto humorístico: o ‘Testamento do Elefante Hanno’.

A morte, em 1516, do elefante enviado ao Papa Leão X pelo rei de Portugal, D. Manuel I, foi pretexto para satirizar a corte papal. Leão X achou graça e tornou-se protetor de Aretino. Mas as sátiras não agradaram ao sucessor de Leão, Adriano VI, levando-o ao exílio.

Retratado várias vezes pelo seu amigo Ticiano, Aretino foi armado cavaleiro e condecorado pelos papas Clemente VII e Júlio III. Acabou por fixar-se em Veneza onde morreu rico, aos 64 anos, alegadamente sufocado por um ataque de riso.

Do livro ‘Sonetos Luxuriosos’. Trad. de José Paulo Paes. Ed. Guerra & Paz

"Atenta bem, ó tu que amando estás

E a quem turva tão doce empreendimento,

Neste que leva a cabo tal intento

Ledamente fodendo onde lhe apraz.

 

(...) Vede como nos braços a levanta

Ele, que as pernas dela tem dos lados

E como de prazer já se quebranta.

 

Não se perturbam por estar cansados,

Mas o jogo lhe dá ardência tanta

Que fodendo queriam-se finados.

 

E retos, sem cuidados,

Ofegam juntos, de prazer frementes,

E enquanto ele durar, estão contentes."

 

"(...) Fosse foder após a morte honesto,

‘Morramos de foder!’ seria o meu

Lema, e Eva e Adão fodíamos por seu

Invento de morrer tão desonesto.

 

É bem verdade que se esses tratantes

Não comessem do fruto traidor,

Eu sei que ainda fodiam-se os amantes.

 

Mas caluda e me enfia sem temor

Esse pau que à minha alma, em seus

rompantes,

Faz nascer ou morrer, dela senhor.

 

E se possível for,

Quisera eu pôr na cona estes colhões

Que de tanto prazer são espiões."

 

"Gentis espectadores que admirais

Esta que em cona e cu pode saciar-se

Em mil modos de foder deleitar-se

E a seu modo gozar na frente e atrás.

 

Os três contentes, certo, bem estais

Por minha fé que escassos de encontrar-se

São o gosto, o gozar, o deleitar-se.

Eis que os três a um só tempo desfrutais.

 

Podes os três a um só tempo comprazer,

Dama gentil. Será coisa excelente,

Gostosa e delicada. É só querer.

 

Tola não te achará a sábia gente

De a dois amantes dar igual prazer,

Um por detrás e o outro pela frente. (...)"

 

"Pára com isso, pára, mal me faz!

Pára, cruel, senão eu morrerei;

Deixa-me em paz ou então gritarei;

Ai que dor, eu não aguento, é demais!

 

Vida minha, contém um pouco os ais.

Deixa-me agir, suporta, que o porei

Mais dentro inda, tão suave quanto sei;

Se calo o que me dói, não grites mais.

 

Ai de mim, cruel, deixa-me escapar.

Vê o que fazes contra o meu candor.

Se me queres, não faças eu gritar.

 

Não grites mais, coração meu, amor.

Tem calma, não me impeças, vais gostar.

Que o prazer sempre vem depois da dor.
 

E sirvo-te melhor

Pondo-o no cu, meu bem, pois não terás

Já dor tão grande e o candor salvarás."

Pasquins e pasquinadas
Aretino começou por escrever pasquinadas, textos satíricos colocados junto à estátua do Pasquino, em Roma, patrono dos jornais críticos que afrontam os poderosos.

O testamento do elefante
Quando morreu o elefante oferecido por D. Manuel I a Leão X (que inspirou a Saramago ‘A Viagem do Elefante’), Aretino escreveu um ‘testamento’ que divertiu o Papa.

Cortesãs e prostitutas
‘A Cortesã’ foi uma paródia ao livro ‘O Cortesão’, de Baltazar Castiglione, guia para as cortes do Renascimento, descritas por Aretino como antros de devassidão.

Gostos variados
"Sodomita" assumido, confessou que, por uma inesperada "aberração", enamorou-se de uma cozinheira e passou, "temporariamente" dos rapazes
às raparigas.

Retratado no ‘Juízo Final’
Aretino serviu de modelo a Miguel Ângelo para pintar S. Bartolomeu no fresco do altar-mor da Capela Sistina. A pele do santo tem as feições do próprio Miguel Ângelo.

A luxúria de Nyman
O compositor Michael Nyman musicou para a Bienal de Veneza ‘Sonetos Luxuriosos’, em 2007. O programa foi retirado em Londres por ‘conteúdo obsceno’.

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