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Vírus 'apanhado' pela Imprensa

Grupo do Facebook ‘As Melhores Capas Covid-19’ mostra jornais e revistas de todo o Mundo.
Fernando Madaíl 12 de Abril de 2020 às 10:00
FOTO: Direitos Reservados

A célebre imagem do filme 'Intriga Internacional', de Alfred Hitchcock, em que Cary Grant foge de um avião, inspirou duas capas: enquanto a revista francesa ‘L’Express’ substituiu o aeroplano pelo coronavírus, o jornal britânico ‘The New European’ encheu os braços do ator com rolos de papel higiénico. O designer José Maria Ribeirinho criou, a 21 de março, um grupo no Facebook chamado ‘As Melhores Capas Covid-19’, porque se lembrou que vários organismos internacionais, na Guerra do Golfo, lançaram concursos para a escolha das melhores primeiras páginas sobre o conflito.

Confinado em casa, o ex-editor gráfico do ‘Diário de Notícias’, entre 1988 e 2004 – ganhou, nessa altura, vários prémios para ‘A Melhor Capa do Mundo’, atribuídos pela Society for News Design –,  pretendeu que esta comunidade no Facebook fosse "um passatempo, não apenas destinado aos profissionais da Imprensa, mas que agregasse também leitores interessados em ver o que se faz no estrangeiro e no nosso país".

Mesmo para os especialistas, se é normal acompanhar os principais órgãos de comunicação, seria difícil o acesso a um conjunto de títulos tão distintos como o belga ‘Knack’, o holandês ‘Het Parool’, o ucraniano ‘Kyiv Post’, o checo ‘Respekt’, o indonésio ‘Koran Sindo’, o sul-africano ‘Cape Times’, o canadiano ‘Now’, o mexicano ‘Proceso’, tantos mais.

No entender de José Maria Ribeirinho, "uma boa primeira página concilia a ilustração com a ideia das palavras da manchete". No caleidoscópio reunido naquele grupo do Facebook, em que surgem desde o britânico ‘Times’ até ao ‘South China Morning Post’, do circunspecto alemão ‘Die Zeit’ ao iconoclasta espanhol ‘El Jueves’, a maioria faz a leitura completa: o argentino ‘Noticias’ titula "la industria del medo"; a inglesa ‘The Economist’ coloca a faixa "closed" sobre o Planeta; o desportivo espanhol ‘Marca’ fez uma seleção dos profissionais envolvidos no combate à pandemia e chamou-lhe "el equipo de todos".

Temas, aliás, não faltam. O adiamento dos Jogos Olímpicos, que, por coincidir com a morte de Uderzo, permitiu ao desportivo francês ‘L’Équipe’ ilustrar a notícia com o título "Astérix au Jeux Olympiques en 2021". O medo universal, sintetizado pela revista brasileira ‘Piauí’, que anuncia "tempos da peste". O confinamento doméstico, esse "melancovid", como lhe chamou o diário francês ‘Libération’. E, como sempre, há algum humor. O francês ‘Charlie Hebdo’ tanto ironiza sobre o açambarcamento de papel higiénico como com o perigo do vírus para... os médicos.

Henrique Cayatte, criador da identidade gráfica do ‘Público’ e da ‘Egoísta’ (entre tantas outras publicações) e professor na Universidade de Aveiro, não encontra "nenhuma primeira página extraordinária" – e sublinha a sua "desilusão com as capas do ‘Libération’, que, normalmente, se destaca nestas situações".

Se tivesse de atribuir um ‘Oscar’, não hesitava na escolha: "a da ‘The New Yorker’ que retrata Trump com a máscara nos olhos", criada por Brian Stauffer. Ainda por cima, porque é um claro contraste com a permanente repetição do objeto a proteger a boca, "uma perspetiva tão redutora que se chega ao ponto de francesa ‘Prestige’ a aplicar na ‘Mona Lisa’" – e o jornal polaco ‘Gazeta Wyborcza’ fazer o mesmo com o quadro ‘O Grito’, de Munch.

"Mesmo as capas graficamente bem concebidas dão uma sensação de ‘déja vu’." Afinal, "a capa toda branca da italiana ‘Vogue’ é igual à antiga capa do ‘Disco Branco’, dos Beatles". Henrique Cayatte ainda se detém numa "muito bem desenhada" capa da londrina  ‘New Statesman’, em que emerge, "num ambiente de um azul (quase frigorífico), uma figura com uma supermáscara sofisticada".

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Mas prefere dois outros exemplares. O mais caligráfico, que apenas tem as palavras ‘Don’t Panic’, com um risco sobre a primeira, obra da web designer Cathleen Tseng, "que faz quase lembrar um grafitti", na capa da ‘New York Magazine’. E a pintura de Pascal Campion, em que, na cidade das multidões, com fama de que nunca parava, surge uma imagem noturna, "em cinzentos e pretos, vendo-se, ao fundo, uma figura de homem iluminado sob uma pala", numa outra capa da ‘The New Yorker’.

Politicamente corretas
João Bicker, diretor criativo do atelier FBA e professor de Tipografia e de Teoria e História do Design na Universidade de Coimbra, além das exceções da ‘The New Yorker’ e do suplemento ‘Metropoli’, do espanhol ‘El Mundo’, ambos "com forte registos autorais", considera que a maioria destas capas são "pouco ambiciosas, graficamente conservadoras, cautelosas e conformistas, politicamente corretas".

Na sua opinião, "não traduzem a violência do tempo que vivemos, em que seria de esperar uma maior criatividade que nos chocasse"; mas, pelo contrário, "não são provocadoras, nem estimulantes". Destaca apenas a da publicação americana ‘The Atlantic’, com uma coluna do poder a desfazer-se e o título "How to Destroy a Government"; a do jornal italiano ‘Il Foglio’, quase uma infografia de pontinhos vermelhos; a da revista americana ‘The New Republic’, que, sem palavras, coloca "Trump e Xi Jinping com o dedo na boca, a impor silêncio".

Nada que o surpreenda, porque "vivemos num tempo em que a tendência é a do grafismo ser filtrado pelos critérios dos gabinetes de comunicação e de marketing, que definem qual é o gosto do que se entende ser o público e a forma de afinar essa preocupação de que toda a gente perceba".

A capa mais votada neste grupo do Facebook, até agora, é outra da ‘The New Yorker’, assinada por Tomer Hanuka. A ilustração é quase uma metáfora deste tempo: ao soprar para a flor conhecida como dente-de-leão, que lhe serve simultaneamente de trajo, a elegante dama tem consciência de que aqueles frágeis frutos, levados pelo vento, se vão espalhar como um vírus? No fundo, resume o autor: "Quero que o leitor fique apenas com uma ideia ou um sentimento."

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