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Correio da Manhã

Domingo
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Leitura de Verão: "A Ilustre Casa de Ramires"

Obra não é uma apologia de Gonçalo, muito menos da Pátria. De certa forma, é mesmo o contrário.
Maria Filomena Mónica 18 de Agosto de 2019 às 11:00
Eça de Queiroz
Eça de Queiroz FOTO: Eça de Queiroz

Todos os verões regresso a Eça de Queiroz. Desta vez optei por reler ‘ a Ilustre Casa de Ramires’. O que me irrita neste livro, como aliás em ‘A Cidade e as Serras’, é o facto de ainda haver portugueses que pensam que estas obras foram inteiramente escritas por Eça.

A história é mais complicada do que parece. Algures na década de 1890, ele começou a escrever um conto que intitulou ‘A Ilustre Casa de Ramires’. Um ano depois, a sua extensão levou-o a optar por um livro, tendo começado a publicar o texto, em folhetins, na ‘Revista Moderna’. O romance estava por acabar quando, em 1900, ele morreu.

O maior especialista na obra do romancista, Guerra Da Cal, considera que a ideia de levar o protagonista, Gonçalo Ramires, até África deve ter surgido a Eça, se surgiu, depois de publicados os folhetins, visto que neles nunca tal possibilidade foi aventada. Após a morte de Eça, a editora pediu a Júlio Brandão para corrigir umas provas. Dado o manuscrito ter desaparecido, não se sabe o que este terá mudado. Em rigor, desde meados do capítulo X, ou seja, desde a madrugada que antecedeu a sova que Ramires dá a Narcejas até ao fim, o texto é um ‘póstumo’. Sabendo-o, podemos contudo rir-nos com alguns diálogos.

Veja-se a cena em que uma irmã dele lê alto uma carta que uma parente lhe enviara sobre as andanças de Gonçalo. Relatava que, após quatro anos de África, regressara a Lisboa. Dizia ter enriquecido com coqueiros, cacau e borracha, mas que decidira que a vida em África não era para ele. Os presentes aproveitaram para discutir os méritos das colónias. Um deles, o administrador do concelho, considerava-as um fardo: "A África é como essas quintarolas, meio a monte, que a gente herda duma tia velha, numa terra muito bruta, muito distante, onde não se conhece ninguém, onde não se encontra sequer um estanco; só habitada por cabreiros e com sezões todos os anos. Boa para vender!"

A irmã de Gonçalo indignou-se, exclamando que eram terras que tinham custado a ganhar. Gouveia não se comoveu: "Quais trabalhos, minha senhora? Era desembarcar na areia, plantar umas cruzes de pau, atirar uns safanões aos pretos... Essas glórias de África são balelas. Está claro, V. Excia fala como fidalga, neta de fidalgos... Mas eu como economista..."

‘A Ilustre Casa de Ramires’ é um semi-póstumo que a direita portuguesa resolveu enaltecer porque
é ignorante ou burra. Para começar, a figura de Gonçalo é patética. A história dos avoengos parece estar ali apenas para salientar a fraqueza do homem. Trutesindo, o antepassado medieval, podia ter uma alma bárbara, mas era um homem que cumpria a palavra dada, o que não sucede no caso do descendente. ‘A Ilustre Casa de Ramires’ não é uma apologia de Gonçalo, muito menos da Pátria. De certa forma, é mesmo o seu contrário.

LIVRO
Três artigos geniais de Marl Twain
Tenho andado a remexer a minha alma, a fim de averiguar se sou patriota. No meio destas andanças, dei comigo a ler três artigos de Mark Twain, ‘A Propósito do Patriotismo’, ‘Patriotismo’ e ‘Mark Twain Anti-Imperialista’. Como seria de esperar, são geniais. Quanto à questão inicial, ainda a não resolvi.

LIVRO
O enigmático grupo dos ciganos
Dei comigo a pensar noutras civilizações, quando comparadas com a ‘Ocidental’, tendo mandado vir um livro sobre o enigmático grupo dos ciganos. A obra é escrita por Angus Fraser : ‘The Gypsies’. Fala da sua origem na Índia e sua expansão por vários países europeus (incluindo Portugal, onde se estabeleceram no séc. XVI).

RÁDIO
‘Global shaper’ como profissão
Nunca oiço rádio, mas um amigo explicou-me que era fácil ouvir a Rádio Observador através do computador. Gostei de ver a Diana Duarte na série ‘A Minha Geração’. No primeiro programa aparecia um rapaz de seu nome João Marecos que, além de advogado, tinha outra profissão, ‘Global Shaper’. Quê? Estou obsoleta.

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