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Correio da Manhã

Domingo
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Os partidos socialistas

Se fosse Sócrates, deixava de invocar a História para o que quer que seja.
Maria Filomena Mónica 15 de Setembro de 2019 às 11:00
PS
PS FOTO: João Miguel Rodrigues

José Sócrates lamentou, há dias, os "ataques" que António Costa estaria a fazer à "história do Partido Socialista". Presumo que se referiria ao partido em que se integrou em 1981. Acontece que, antes dele, o socialismo já existia no nosso país.

A génese dos partidos é importante. O Partido Trabalhista inglês representou a união dos sindicatos e dos sociais-democratas. O embrião do SPD alemão foi criado em 1863 e passou por cisões, de que a mais importante terá sido a que ocorreu entre a revolucionária Rosa Luxemburgo e o reformista Bernstein. Oito anos depois da Comuna de 1871, aparecia em França a Federação dos Trabalhadores Socialistas e, em 1905, a Secção Francesa da Internacional Operária, a qual, em 1969, se transformaria no Partido Socialista Francês.

E em Portugal? Há quem imagine que tudo começou com a iniciativa de três intelectuais, Mário Soares, Ramos da Costa e Tito de Morais, que, em abril de 1964, criaram a Associação Socialista Portuguesa. A ASP foi, na realidade, o embrião do Partido Socialista fundado em Bad Münstereifel, nove anos depois, por Mário Soares e por 26 amigos. Convém todavia saber o que aconteceu antes. Porque um tempo existiu em que os Socialistas tiveram uma importante base operária.

Desde 1866 que a I Internacional, ligada a K. Marx, tentava, sem êxito, entrar em contacto com os portugueses. No verão de 1871, chegaram a Lisboa três espanhóis, cuja missão era contribuírem para a fundação de um partido filiado naquele organismo. Reunidos num barco a meio do Tejo, Batalha Reis, José Fontana e Antero de Quental, ouviram a doutrina. Em 1873, surgia a Associação dos Trabalhadores da Região Portuguesa (quem se lembra ainda de Luís de Figueiredo?) e, três anos depois, o Partido Socialista, o Partido dos Operários Socialistas e o Partido Socialista Português. A República, que tantas promessas fizera aos trabalhadores, depressa os desiludiu. O ódio a Afonso Costa, o ‘racha-sindicalistas’, aumentou, o que levou a que o operariado deixasse de acreditar na obtenção de regalias por via pacífica. O anarco-sindicalismo suplantou então o socialismo. O Estado Novo proibiria os partidos, o que levou a que a oposição ficasse reduzida a um PCP clandestino. Se fosse Sócrates, deixava de invocar a História para o que quer que seja.

LIVRO
Prosa de uma limpidez excecional
Acabo de ler um livro de um jornalista inglês residente em Portugal. Intitula-se ‘Rainha do Mar’ (no original, ‘Queen of the Sea’) e recomendo-o. Gostei da forma como retrata a história da cidade onde nasci. O relato não é cronológico, mas a arquitetura do texto é bem conseguida e a sua prosa de uma limpidez excecional.

FILME
Um massacre contado de forma magistral
Filmado por um cineasta da escola realista britânica, o filme ‘Peterloo’ conta um episódio famoso: a manifestação dos operários de Manchester, a 16 de agosto de 1819, a favor do voto. Tudo acabou de forma violenta, com 15 mortos no terreiro. Mike Leigh conseguiu dar-nos, de forma magistral, o espírito da época.

URBANISMO
O meu bairro está em vias de perder a identidade

A CML acaba de chumbar o projeto de alterações para o edifício e logradouro situados na Calçada da Estrela, 40/48. Tenho assistido, com horror, ao que se tem construído na R. de S. Bernardo e R. da Lapa. O meu bairro está em vias de perder a sua identidade. Da minha janela, vejo guindastes monstruosos, o que me faz temer o pior.

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