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Correio da Manhã

Eu Repórter CM
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“Assassinaram o piropo!”

O leitor do CM Nuno Machado fez-nos chegar esta carta.
30 de Dezembro de 2015 às 14:05
Vice-presidente da bancada parlamentar do PSD, Carlos Abreu Amorim, veio a público esclarecer que a reforma penal sobre violência contra as mulheres "não criminalizou o piropo"
Vice-presidente da bancada parlamentar do PSD, Carlos Abreu Amorim, veio a público esclarecer que a reforma penal sobre violência contra as mulheres 'não criminalizou o piropo'
"É com enorme tristeza que reconheço a morte do meu País!

Dos quatro pilares sobre os quais assenta qualquer identidade de um povo e de uma nação – História, Música, Desporto e Cultura – Portugal já não tem nenhum… Há já algumas centenas de anos que D. Afonso Henriques não bate na mãe, a Amália já não canta, o Eusébio deixou de comer tremoços e agora… Assassinaram o piropo!

Compreendo que os tempos estão difíceis, que é preciso conter e controlar a impulsividade, principalmente nesta época mais festiva; só não concordo que o façam através da repressão! Cortem nos vícios, cortem nos gastos supérfluos, controlem o gasto desenfreado de quantidades astronómicas de dinheiro. É certo que já estamos habituados, que seria uma medida drástica e sujeita a contestação e repulsa, mas cortem nos impostos. Fazem parte das nossas vidas, bem sei, mas por vezes é necessário fazer sacrifícios e quebrar barreiras. Acabem com o IVA, o IRS, o IRC e a Contribuição Autárquica, mas não nos tirem um elemento cultural de identificação.

É impressionante como se continua a ignorar quem mais contribui para o desenvolvimento deste País. Os trolhas – agora apelidados de técnicos de Construção Civil – trabalham de sol a sol, horas a fio debaixo de condições sobre humanas enquanto, em simultâneo, criam todo um vocabulário tão rico em adjetivação que a História não lhe atribui qualquer concorrente. O que vai ser destes empreendedores multifacetados que executam paralelamente atividades de índole cultural?

Porquê o "piropo"? Por que não o Mirandês ou o Tripeiro? Serão estes dois últimos dialetos "oficiais", com direito a dicionário impresso pela Porto Editora, sendo o ‘piropo’ o enteado neste País de cunhas e lobbies?

E o que será das "mal amadas"? Se já por si não têm a atenção dos homens, quem lhes elevará a moral? Considerem serviço público ou chamem-lhe o que quiserem. Quantas amizades não terão começado com um simples: "A tua mãe deve ser uma ostra, para cuspir uma pérola assim"?
Quantas? Acordem! Alguém que tenha a coragem de chamar estes senhores à realidade. Piroso? Então… E o Rancho Folclórico? Ai esse já é cultura!? Um conjunto de saltitões que andam da esquerda para a direita, de braços no ar, ao som de uma cana rachada… Isso é cultura!
Quantas famílias se constituíram ao som do rancho folclórico? Mas com o piropo tudo é diferente. Com o piropo eleva-se a moral, o ego!

O que mais tenho para transmitir aos meus filhos? Como dizer-lhes que o País onde nasceram nada mais tem para lhes oferecer? Tudo o que é bom acabou! Os anos 80, as escondidinhas na rua, os jogos de futebol onde as balizas eram os portões dos armazéns, o radicalismo de trocar a correspondência de todas as casas da freguesia… E agora o piropo! Como acreditarão os meus filhos em mim? Tudo o que é bom foi vivido pela nossa geração, consumindo e assimilando tudo de uma forma egoísta e sôfrega deixando… Nada!

O piropo morreu e com ele morreu a identidade do País e também um pouco de mim!"
Piropo história música
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