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Ataques de cães a tartarugas em São Vicente preocupam ambientalistas cabo-verdianos

Biosfera Cabo Verde contabilizou mais de 1.500 ninhos de tartarugas e 2.100 rastos nas praias da ilha.
Lusa 5 de Agosto de 2021 às 15:22
Cabo Verde
Cabo Verde FOTO: Getty Images
Os elementos da organização ambientalista Biosfera Cabo Verde contabilizaram mais de 1.500 ninhos de tartarugas e 2.100 rastos nas praias da ilha de São Vicente, numa época de desova marcada pelo aumento de ataques de cães vadios.

Em declarações à Lusa, Isabel Rodrigues, responsável pela campanha de preservação das tartarugas marinhas em São Vicente, desenvolvida por aquela organização, explicou que desde 14 de junho, quando arrancaram com a vigilância da época de desova naquela ilha, já resgataram seis tartarugas que foram atacadas e outra foi encontrada morta.

"Uma das tartarugas, atacada nas duas patas dianteiras. Tivemos que a levar para o veterinário", recorda a responsável, acrescentando que tal como as restantes, resgatadas dos ataques de cães vadios, foi libertada no mar.

"Ultimamente temos recebido muitas denúncias sobre presença de cães nas praias, que atacam tanto as tartarugas grandes, quanto os recém-nascidos. Então, tivemos que aumentar o nosso pessoal", explica Isabel Rodrigues, garantindo que na época de desova (que vai até novembro) de 2020 não se registaram tantos ataques como os verificados este ano.

Em menos de dois meses, os elementos da Biosfera Cabo Verde, com sede em São Vicente, já contabilizaram 1.513 ninhos de tartaruga e 2.135 rastos em seis praias da ilha.

Além do número de pessoal, em que passa a contar com 13 monitores e mais de 40 voluntários inscritos, esta associação ambientalista aumentou o número de locais de desova monitorizados, para tentar ultrapassar o problema dos ataques.

"Estamos a patrulhar mais praias do que o normal porque no ano passado eram apenas as praias do Calhau, Praia Grande e Norte de Baía e este ano incluímos ainda Jon D'Ebra (João Evora), Palha Carga, Sandy Beach e Calheta. Só que nas três últimas as patrulhas são feitas apenas semanalmente e as outras são monitorizadas diariamente", acrescenta Isabel Rodrigues.

Ainda assim, depois do grande crescimento de desova das tartarugas marinhas em Cabo Verde no ano de 2020, não espera que o mesmo se repita este ano.

"As tartarugas não colocam seus ovos todos os anos, eles descansam e os outros que não vieram no ano passado para depositar seus ovos chegam agora. Mesmo assim, os números já são bastante positivos", garante.

A organização recebe ainda, através de uma linha verde, denúncias de captura de tartarugas, dado tratar-se de uma prática ilegal.

"Recebemos uma denúncia de cinco carapaças encontradas na praia de Salamansa, mas aquela localidade não é da nossa responsabilidade, porque tem outra associação no local a fazer este trabalho. Não é a primeira vez que recebemos este tipo de chamada para esta localidade e teremos que analisar o trabalho desta associação no local para ver se é preciso o nosso apoio para reforço", explicou Isabel Rodrigues.

Cabo Verde introduziu legislação para proteger as tartarugas marinhas pela primeira vez em 1987, proibindo a sua captura em épocas de desova, mas desde 2018 está em vigor uma nova lei, que tipifica outros tipos de crime, nomeadamente o abate intencional, bem como a aquisição, a comercialização, o transporte ou desembarque, a exportação e o consumo.

Já na vizinha ilha de Santa Luzia, desabitada, o perigo consiste na orientação das tartarugas na hora de regressarem ao mar. Ali, só nesta época de desova, o número de ninhos ultrapassa o das praias de São Vicente, com 2.715 contabilizados e 7.017 rastos.

"O maior desafio nesta ilha deserta é que as tartarugas perdem-se, ficam desorientadas, e por causa de desidratação, se não forem encontradas a tempo, morrem", lamenta Isabel Rodrigues, que acrescenta que estão colocados em Santa Luzia quatro monitores e alguns voluntários da Biosfera Cabo Verde, para o apoio das tartarugas marinha.

Os rastos são contabilizados como presença de tartaruga em determinada praia, independente de ter ou não depositados seus ovos.

A população de tartarugas marinhas "caretta careta" de Cabo Verde é a terceira maior do mundo, apenas ultrapassada pelas populações na Florida (Estados Unidos da América) e em Omã (Golfo Pérsico).

Cabo Verde tornou-se em 2020 no segundo mais importante ponto de desova de tartarugas marinhas, com o número de ninhos num recorde de quase 200.000, segundo números divulgados em março passado pelo ministro do Ambiente, Gilberto Silva.

De acordo com o responsável, Cabo Verde viu o total de 10.725 ninhos de tartarugas detetados no arquipélago em 2015 aumentar para 198.787 ninhos em 2020, "quase 19 vezes mais".

"Cabo Verde passou a ser o segundo ponto mais importante da desova de tartarugas marinhas no mundo", afirmou o governante.

"Com a educação ambiental, vigia de mais de 180 quilómetros de praias e aplicação da nova legislação que criminaliza a caça e o consumo das tartarugas, a taxa de captura diminuiu significativamente, de 8,25% em 2015 para 1,54% em 2020", acrescentou.

As ilhas da Boa Vista, Sal e Maio representam mais de 95% das desovas no país.

Desde 2016 que as autoridades cabo-verdianas estão a financiar 11 associações comunitárias e organizações em todas as ilhas, e são monitorizados cerca de 167 quilómetros de praias em todo o território nacional.

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