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Correio da Manhã

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Bispo de Moçambique diz que ainda não há condições para regresso às missões em Cabo Delgado

António Juliasse afirmou que "a questão da segurança ainda é precária".
Lusa 17 de Setembro de 2021 às 15:56
Destruição em Cabo Delgado
Destruição em Cabo Delgado FOTO: Getty Images
O administrador apostólico de Pemba, António Juliasse, considera que ainda não estão criadas as condições para que os padres e as religiosas regressem às missões de origem na província moçambicana de Cabo Delgado, afetada por ataques armados de insurgentes.

O também bispo auxiliar de Maputo, que há sete meses substituiu o antigo bispo de Pemba, Luiz Fernando Lisboa, disse, em declarações hoje divulgadas pela Fundação AIS (Ajuda à Igreja que Sofre), que "a questão da segurança ainda é precária".

"A primeira coisa que temos realmente de garantir é que o povo pode voltar em segurança e retomar a sua vida em segurança (...). Mas eu penso que ainda precisamos [de tempo]. Na medida em que o povo regressar, então nós também equacionaremos a possibilidade de os missionários retornarem para lá. Mas, para nós, o termómetro será compreendermos efetivamente no terreno de que existe segurança", acrescentou.

A luta contra os insurgentes em Cabo Delgado ganhou um novo impulso, quando em 08 de agosto forças conjuntas de Moçambique e do Ruanda reconquistaram a estratégica vila portuária de Mocímboa da Praia, que estava nas mãos dos rebeldes há mais de um ano.

Os ataques armados por insurgentes desde 2017 em distritos do norte de Cabo Delgado provocaram mais de 3.100 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e mais de 817 mil deslocados, segundo as autoridades moçambicanas.

"Há um avanço dos militares dessa força conjunta dos ruandeses e também acompanhados pela força de defesa e segurança de Moçambique, há um avanço em termos de penetrar nas zonas que eram de domínio só deles, dos insurgentes, mas não existe ainda garantia de segurança, de que realmente aquelas zonas estão seguras", afirmou o bispo à Fundação AIS.

Para já, a Igreja está a "trabalhar em estreita ligação com vários organismos" das Nações Unidas na região "em apoio humanitário", nomeadamente na proteção de menores.

"Neste momento não há casos reportados de ter havido tráfico de menores ou até abusos. Uma coisa boa e que acontece várias vezes é a proteção das famílias, no sentido de que a família proteja os seus membros. Essa rede tem funcionado como um suporte muito grande para que não aconteçam coisas mais graves no sentido da violação destes direitos tanto da criança como da mulher. No futuro, o que nós vamos trabalhar é no fortalecimento dessas redes familiares, se tivermos as condições para isso", afirmou.

Segundo António Juliasse, a igreja católica está, também, muito envolvida no apoio psicossocial aos deslocados e aponta, como prioridades, a supressão de falta de medicamentos, o apoio alimentar e a criação de condições para que as populações possam produzir os seus próprios bens alimentares.

"As campanhas [agrícolas] de produção vão iniciar-se daqui a pouco com as chuvas, sobretudo a produção do milho, da mandioca e de outros produtos que mais se consomem. Há necessidade de garantir que as famílias tenham meios e isso significa terem enxada, machados, tudo o que for necessário para trabalhar o campo", ao mesmo tempo que devem ter terrenos para produzir, disse o bispo auxiliar de Maputo.

O prelado deixa ainda dúvidas sobre a autoria da destruição de igrejas, nomeadamente em Mocímboa da Praia.

"A destruição veio de cima, dos bombardeamentos dos helicópteros [da DAG, Dyck Advisory Group, empresa militar privada sul-africana, que desde abril de 2020 auxilia as Forças de Defesa e Segurança no combate à insurgência em Cabo Delgado], ou veio dos que estiveram lá a ocupar [a zona]? Tanto em Muidumbe como em Mocímboa da Praia, a questão é a mesma: quem foi que destruiu?", questionou Juliasse.

"Se eu tivesse a certeza de que a destruição foi feita pelos insurgentes, o nosso sentimento seria um. Mas se não sabemos, então o nosso sentimento é outro. E fica-nos a dúvida ainda por tentar resolver. (...) Fica difícil fazer uma leitura", admitiu.

O administrador apostólico de Pemba deu como exemplo o que se passou em Palma: "Na vila de Palma, quando eles [os insurgentes] entraram, a igreja ficou intacta. Não tocaram na igreja, nem entraram lá dentro, inclusivamente na casa dos padres. Os insurgentes não tocaram em nada. Nós tínhamos ainda pessoas lá e que testemunharam isso. Nós estamos nessa dúvida [sobre] quem é que está a vandalizar as coisas, inclusivamente as coisas da igreja católica", acrescentou.

O bispo reconheceu ainda o papel do Papa Francisco na projeção mundial da situação em Cabo Delgado.

"A colaboração do Papa Francisco foi de um valor que é difícil de calcular. Quando ele se fez presente e se fez muito próximo desta situação de Cabo Delgado, todo o mundo também se fez próximo de Cabo Delgado", frisou.

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