Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
3

Cinco anos depois dos ataques em Cabo Delgado deslocados continuam com medo

Organização Internacional da Migração alerta para os 800 mil deslocados.
Lusa 4 de Outubro de 2022 às 07:42
Militares
Militares FOTO: João Relvas/ Reuters
Em Metuge, os traumas de quem fugiu à barbárie dos rebeldes que aterrorizam a província moçambicana de Cabo Delgado há cinco anos continuam frescos e, apesar dos esforços para devolver a estabilidade, o medo prevalece naquela comunidade.

"Agora, o terrorista está em todo lado", lamenta à Lusa Abdul Arlindo, chefe adjunto do centro de acolhimento de Metuge, um dos principais locais a acolher deslocados.

Um receio que persiste, uma perceção que contrasta com a confiança crescente das autoridades, que destacam nunca mais ter havido ataques de grande escala como em Palma, em março de 2021, e que realçam o apoio externo que reforçou as tropas.

As autoridades dão a estrutura da insurgência por debelada e pedem "vigilância" para os grupos rebeldes que restam, dispersos e em fuga, atacando aldeias por onde passam no resto da província - deixando marcas, patentes nos lamentos de Abdul.

No dia 05 de outubro completam-se cinco anos sobre o primeiro ataque, contras unidades de polícia em Mocímboa da Praia.

Era o princípio de um conflito que alastraria pela província e que em 2021 acabaria por suspender os projetos de gás de que o país depende em boa parte para relançar a economia.

São cinco anos de crueldade cravados nos rostos e memórias de milhares de deslocados em Metuge, povoação à beira da baía de Pemba, a capita provincial, que está do lado oposto, a 10 quilómetros de barco ou 40 quilómetros, contornando o mar, por estrada.

Abdul Arlindo, 35 anos de Idade, está entre as mais de 30 mil pessoas que ali procuraram refúgio devido às incursões armadas, na pobreza, obrigados a viver dependentes de apoios.

"A nossa vida resume-se a ficar à espera de apoios", conta à Lusa Bibiana Simão, 44 anos, que diz nunca ter perdido a vontade de voltar para a sua região de origem, no distrito de Quissanga, de onde fugiu em 2020.

As autoridades dizem que as populações de Palma e Mocímboa da Praia, as localidades mais importantes junto aos projetos de gás, podem regressar e que os serviços públicos vão sendo retomados.

No entanto, e em simultâneo, a reconquista reorienta a movimentação dos rebeldes: desde junho intensificaram os ataques no sul da província de Cabo Delgado, mais perto de Metuge, e na vizinha província de Nampula.

"Eles ainda não entraram diretamente na sede de Metuge", mas são os principais suspeitos de mortes violentas em terrenos circundantes, durante os últimos meses.

O medo espalha-se por terras onde as populações têm os seus campos agrícolas.

"Nós estamos cansados dos terroristas", declarou à Lusa Ricardo Mendes,43 anos, outro deslocado acolhido em Metuge.

"A vida está a melhorar, mas com dificuldades", refere, reconhecendo o trabalho das tropas no terreno.

Mas com o registo de novos ataques, o receio aumentou novamente, trazendo à luz os traumas de quem assistiu à mais crua forma de insurgência no norte de Moçambique.

"Parece que eles estão cada vez mais próximos daqui", lamenta Ricardo Mendes.

O receio de novos ataques e a fome que afeta a maior parte das famílias acolhidas em Metuge reforçam em muitos a vontade de voltar para casa.

"Na nossa comunidade, nós costumávamos variar a alimentação [...], aqui comemos todos os dias a mesma coisa, arroz e feijão", queixa-se Graça João, outra deslocada.

Há mais de um ano que as Nações Unidas alertam para um grave subfinanciamento das suas agências em Cabo Delgado, sendo obrigadas a racionar apoios alimentares e outros, de maneira que as ajudas durem mais tempo.

O distrito costeiro tem sido, a par de Pemba, um dos mais sobrecarregados com deslocados em busca de segurança durante os cinco anos de insurgência.

Há cerca de 800.000 deslocados internos devido ao conflito, de acordo com a Organização Internacional da Migração (OIM), e 4000 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos, ACLED.

Ver comentários