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Dificuldade de acesso à educação atrasa "modernidade" das sociedades étnicas da Guiné-Bissau

Rui Jorge Semedo disse ainda que país tem tido "uma dinâmica muito lenta na superação de alguns aspetos".
Lusa 17 de Outubro de 2021 às 08:34
Crianças na Guiné-Bissau
Crianças na Guiné-Bissau FOTO: Getty Images
O analista político guineense Rui Jorge Semedo disse este domingo que as dificuldades de acesso à educação estão a atrasar o acesso à "modernidade" das sociedades étnicas da Guiné-Bissau, principalmente nas zonas rurais.

"Há aspetos animistas guineenses que podem ajudar a reforçar, a criar um ambiente mais solidário, de interpretação não só da realidade social, como também para enfrentar algumas situações que podem contribuir para dificuldades, mas por outro lado há aspetos que são nefastos que a sociedade guineense já precisa ultrapassar, tendo em conta o contexto da modernidade que a Guiné este domingo vive e que precisa ser apropriado pelas sociedades étnicas", afirmou Rui Jorge Semedo.

Para o analista, ainda há "muitas dificuldades neste processo de transição do tradicional para o moderno, porque também o país tem tido muitas dificuldades, principalmente nas zonas rurais, no acesso à educação".

O analista falava à Lusa sobre o impacto que as crenças, as tradições, o animismo e a feitiçaria têm tido no desenvolvimento do país.

"Isso faz com que continuemos a permanecer numa manifestação mais arcaica", afirmou.

Segundo Rui Jorge Semedo, outras sociedades, em outras partes do mundo, tiveram a mesma experiência e "conseguiram com investimento, sobretudo na educação, superar certos aspetos nefastos e preservar o que era importante para a vida social e interação das suas diversas culturas".

"Na Guiné-Bissau temos tido uma dinâmica muito lenta na superação de alguns aspetos e também de apropriação de outros aspetos que possam contribuir para melhores condições de vida, quer do ponto de vista cultural, social, político e até económico", disse.

Questionado pela Lusa sobre alguns exemplos de crenças, o analista falou da visão cosmogónica dos balantas que acreditam que vir da linhagem de dois animais, nomeadamente dos lagartos e dos lobos.

"Segundo a interpretação dos elementos da própria etnia, os lobos são a linhagem que praticam o mal, fazem mal a alguém, enquanto os lagartos praticam o bem, procuram trazer algo para complementar a família", disse.

No livro "Técnicas e Saberes Locais da Tradição Balanta", da autoria do analista, Rui Jorge Semedo explica que os descendentes de lagartos, que vivem uma vida ligada ao rio e ao mar, quando encontram uma pessoa bonita transforma-se no animal matam a pessoa e "magicamente" colocam a alma da pessoa na barriga da mulher para que nasça no seio da família.

Mas, a morte aqui não é vista como uma maldição, explicou Rui Jorge Semedo, porque a ação do lagarto vai "contribuir para o engrandecimento da família".

Já a linhagem do lobo, está associada à maldição e à feitiçaria e as suas "ações são mais para fazer mal, destruir a família e as riquezas", disse.

Recentemente, na tabanca de Com, de etnia balanta, um arrozal perdeu a água doce, porque as tampas dos tubos que devem reter a água foram retiradas. A comunidade perdeu milhares de quilogramas de arroz, base alimentar dos guineenses. Sem uma explicação para o ocorrido, a comunidade associou o acontecimento aos lobos.

"Isto é uma interpretação do ponto de vista cultural em que os balantas acreditam. A sociedade só vai ultrapassar essas perceções quando conseguir acompanhar algumas evoluções inerentes à sociedade. É uma crença muito disseminada, não só no seio dos balantas, como a nível nacional. Todos os guineenses conhecem esta mística e respeitam", afirmou.

Na Guiné-Bissau, disse o analista, cada grupo étnico tem as "suas lendas, as suas místicas e particularidades" e nessa "diversidade" os guineenses vão "resistindo e interagindo uns com os outros".

Mas há crenças e rituais que eram praticados em outras etnias que já foram postos de lado, como por exemplo, enterrar juntamente com o corpo de um régulo um rapaz e uma rapariga virgens, o canibalismo e o infanticídio.

"Hoje isso já não existe. Isso são elementos que mostram que daqui para a frente a prática do lobo e do lagarto também vai ser passado e contado como história", afirmou.

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