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"Achei que ia morrer". Prisioneiro de Guantánamo revela técnicas secretas de "tortura" da CIA

Mensageiro da Al-Qaeda revelou em tribunal as técnicas secretas de interrogatório do governo dos EUA depois do 11 de setembro.
29 de Outubro de 2021 às 15:52
Prisão de Guantánamo
Prisão de Guantánamo FOTO: Getty Images
É a primeira vez que um prisioneiro da Baía de Guantánamo fala abertamente em tribunal sobre o programa de interrogatórios dos EUA que se seguiu aos atentados do 11 de setembro. Nas palavras de Majid Khan as técnicas secretas de "tortura" da CIA deixaram-no completamente "aterrorizado e com alucinações", avançou o The Guardian.

O mensageiro da Al-Qaeda admitiu os crimes terroristas de que era acusado no primeiro de dois dias de audiência, mas não sem antes falar dos dias de abusos dolorosos a que foi submetido nas instalações clandestinas da CIA. Khan revelou que o deixavam todo nu suspenso numa viga no teto durante longos períodos de tempo, enquanto lhe atiravam água gelada para o manter acordado por dias.

O arguido descreveu ainda que os interrogadores o mantinham com a cabeça submersa até quase se afogar e quando o deixavam subir atiravam-lhe água para o nariz e para a boca. Khan foi espancado, abusado sexualmente e passou fome durante aquilo que os Estados Unidos chamaram "interrogatório intensificado", mas que veio a ser classificado como tortura.

"Achei que fosse morrer", disse o prisioneiro. "Eu implorava para que eles parassem e jurava que não sabia de nada. Se eu tivesse informações para dar, já a teria dado, mas não havia nada".

Khan disse que nunca viu a luz do dia e que não teve contato com ninguém além de guardas e interrogadores desde o dia da captura até ao sexto ano na prisão de Guantánamo. "Quanto mais eu cooperava, mais era torturado", acrescenta.


Em fevereiro de 2012, Khan admitiu ser culpado das acusações que incluem conspiração, assassínio e apoio material ao terrorismo num acordo que reduziu a sentença em troca de cooperação com as autoridades noutras investigações. 

Agora, Khan poderá ser condenado entre 25 a 40 anos de prisão, mas a sentença deverá ser reduzida para não mais de 11 anos devido à ampla cooperação com as autoridades norte-americanas. Isso significa que ele deverá ser libertado no início do ano que vem e transferido para outro país, estando proibido de regressar ao Paquistão, onde tem cidadania.

O homem de 41 anos nasceu na Arábia Saudita e mudou-se para os EUA em 1990, onde recebeu asilo. Khan admitiu que se juntou a uma ideologia radical depois da morte da mãe, mas que está arrependido. Agora diz que só se quer reunir com a esposa e a filha que nasceu enquanto estava detido.

Inaugurada em 2002, a temida prisão de Guantánamo foi criada pela administração de George W. Bush em território norte-americano em Cuba, como parte da "guerra ao terror" declarada pelos Estados Unidos como resposta ao ataque ao World Trade Center, a 11 de setembro de 2001.

A Amnistia Internacional já se referiu à prisão como o "gulag dos nossos tempos" e como uma maneira de os norte-americanos punirem os acusados à margem da lei. Os Estados Unidos ainda mantêm, ao dia de hoje, 39 homens no centro de detenção da Baía de Guantánamo.
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