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Expulsão de embaixadores pela Turquia preocupa ocidente e figuras internas e faz cair moeda

Em causa está a decisão do presidente turco de expulsar 10 embaixadores.
Lusa 25 de Outubro de 2021 às 14:22
Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan
Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan FOTO: Reuters
A Alemanha e várias figuras internas da Turquia criticaram esta segunda-feira a decisão do Presidente turco de expulsar 10 embaixadores, anúncio que também abalou os mercados financeiros, com a lira turca a cair para níveis históricos.

A Alemanha expressou "preocupação e incompreensão" pelo anúncio de Recep Tayyip Erdogan de que ordenara a expulsão de 10 embaixadores ocidentais, incluindo o representante alemão, por terem defendido o opositor Osman Kavala.

Sublinhando que Berlim ainda não recebeu uma "comunicação oficial" de Ancara sobre esta decisão, o porta-voz do Governo alemão, Steffen Seibert, disse que ouviu "com preocupação e também com incompreensão" as declarações do Presidente turco.

A decisão já tinha sido criticada no domingo pela primeira-ministra da Finlândia, Sanna Marin, que disse à estação pública de televisão YLE que a "reação dura" tomada por Tayyip Erdogan no sábado "é incompreensível".

Erdogan anunciou no sábado que os embaixadores de 10 países - França, Finlândia, Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Noruega, Suécia, Canadá, Estados Unidos e Nova Zelândia - que apelaram à libertação do seu opositor Osman Kavala, seriam declarados 'persona non grata'.

"Ordenei ao nosso ministro dos Negócios Estrangeiros que tratasse, o mais rapidamente possível, da declaração desses 10 embaixadores como 'persona non grata'", disse o chefe de Estado.

Esses embaixadores "deviam conhecer e compreender a Turquia", disse Erdogan, acusando-os de "indecência" e sublinhando que "terão de deixar" o país.

Uma declaração de 'persona non grata' contra um diplomata geralmente significa que a pessoa passa a estar proibida de permanecer no país anfitrião.

A posição de Erdogan também provocou uma polémica interna na Turquia, onde até figuras proeminentes do lado conservador criticam a decisão.

A mensagem mais relevante foi dada pelo ex-Presidente Abdullah Gül, fundador, em conjunto com Erdogan, do partido islâmico AKP em 2001.

Abdullah Gül alertou sobre possíveis consequências negativas para a Turquia deste ato contra os embaixadores ocidentais e defendeu hoje que "não é do interesse do país transformar esta questão numa grande crise".

"O assunto não deveria ter chegado a este ponto. É um problema para a Turquia" e "abre caminho a novas crises", disse Gül, que deixou de ser chefe de Estado em 2014.

O ex-presidente concordou que a ação dos embaixadores "foi inaceitável", mas lembrou que os 10 já tinham sido convocados na terça-feira passada para ouvirem as críticas dos decisores turcos.

Também o líder da oposição turca, o social-democrata Kemal Kiliçdaroglu, se manifestou contra a expulsão, acusando Erdogan, em declarações escritas na rede social Twitter, de "levar o país ao abismo" e de, em vez de proteger os interesses nacionais, estar a destruir a economia.

A lira turca, cujo valor face ao euro já estava em queda há duas semanas, caiu, hoje de manhã, para um valor mínimo histórico, situando-se 11,45 unidades por euro e 9,8 por dólar.

A moeda turca manteve-se desde a segunda semana de outubro em trajetória descendente pronunciada e sustentada e, após acumular perda de 8% até o último final de semana, acentuou a tendência hoje com uma nova queda de 2,4 pontos.

Com esta queda de 2,4 pontos, a desvalorização da moeda turca desde há duas semanas chega aos 10,4%.

A decisão de Erdogan foi tomada depois de a França, a Finlândia, a Dinamarca, a Alemanha, os Países Baixos, a Noruega, a Suécia, o Canadá, os Estados Unidos e a Nova Zelândia pedirem, em comunicado conjunto divulgado na segunda-feira passada, um "acordo de libertação justo e rápido para" Osman Kavala, empresário e mecenas turco considerado como um opositor do regime e que está há quatro anos preso sem ter sido julgado.

Kavala, de 64 anos, é uma figura importante na sociedade civil, tendo sido acusado em 2013 de tentar desestabilizar a Turquia ao apoiar protestos antigovernamentais, conhecidos como movimento Gezi (por terem decorrido no Parque Taksim Gezi), em que 2016 de tentar "derrubar o Governo".

Em dezembro de 2019, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (CEDH) ordenou a sua "libertação imediata", mas Osman Kavala continua na prisão até pelo menos 26 de novembro, de acordo com uma decisão de um tribunal de Istambul.

O Conselho da Europa ameaçou recentemente impor sanções à Turquia já na sua próxima sessão (que decorre entre 30 de novembro a 02 de dezembro) se o opositor não for libertado até essa altura.

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