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Fretilin pede a Portugal que suspenda entrada de timorenses

Secretário-geral da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente quer impedir situações de miséria e abandono dos imigrantes em território português.
Lusa 5 de Outubro de 2022 às 08:07
Mari Alkatiri
Mari Alkatiri
O secretário-geral da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin) pediu esta quarta-feira o fim da atribuição de vistos a timorenses para impedir situações de miséria e abandono dos imigrantes em Portugal.

Em entrevista à Lusa em Lisboa, Mari Alkatiri, que coordena a plataforma que sustenta o governo timorense, considerou que, "em Timor-Leste, se deve travar esta onda de procura de vida fora do país, enquanto não houver um acordo de alto nível entre governos para acomodar isso".

Nos últimos dias tem sido notícia a situação de crise e abandono que estão milhares de timorenses em Portugal, trazidos por redes criminosas para trabalhar no setor agrícola, uma situação social que já motivou pedidos de apoios de várias autarquias.

Trata-se de uma situação "chocante" que tem sido tema nos contactos feitos em Portugal com os governantes portugueses, admitiu Mari Alkatiri.

"Eu acho que primeiro tem que haver um acordo-quadro entre Portugal e Timor-Leste" que complemente o "acordo de mobilidade dentro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)" com a atribuição de vistos de trabalho.

"A mobilidade, apenas, não resolve porque quando os timorenses chegam a Portugal como é que podem ficar? Como se acomodam? Como ficam em condições legais para procurar emprego?", questionou o líder da Fretilin, que elogiou a nova legislação portuguesa que dá um prazo de seis meses aos cidadãos da CPLP para tentarem obter trabalho.

"Isso não é suficiente, mas já é um passo positivo que o Governo português tomou", mas "o fundamental é suspender a vinda deles [dos timorenses] agora".

Depois, é necessário que Timor-Leste dê "formação adequada a quem quer emigrar", com "treinos vocacionais e profissionais" que correspondam a necessidades dos países de destino.

Para Mari Alkatiri, esta vontade de emigrar dos timorenses mostra que "há uma juventude que perdeu a esperança" no futuro do país, que "já não vive da nostalgia do período da restauração da independência" e "quer um futuro concreto".

Para tal, é necessário também que os políticos timorenses façam pactos de regime que promovam o bem-estar a médio prazo e correspondam aos anseios da população.

E isso implica que os principais partidos, Fretilin e Conselho Nacional de Resistência Timorense (CNRT, de Xanana Gusmão) concordem nas linhas de desenvolvimento.

"Defendo, há muito, consensos políticos que são essenciais para países pequenos" mas, em Timor-Leste, "há muitos mitos e o mais forte deles é o do dinheiro" que prejudica os acordos.

Em Timor-Leste, "há uma certa nostalgia que é a figura do Xanana" que marca uma "forma de fazer política" no país, afirmou Alkatiri, acrescentando: "O Xanana conhece muito bem o povo e sabe como explorar parte dessa falta de informação" em "benefício de alguns.

Atualmente, o CNRT e a Fretilin não conseguem, isolados, ganhar o poder e depois existem "aqueles partidos pequenos" que "ainda continuam a proliferar" e que garantem o equilíbrio do poder.

"O mito em Timor-Leste já não é Xanana, o mito em Timor-Leste é o dinheiro" e "assim se faz também política", comentou Mari Alkatiri, que elogiou o trabalho do Presidente, José Ramos-Horta, que derrotou o candidato da Fretilin.

"Não haverá em Timor-Leste tão cedo um Presidente para todos os timorenses, mas ele está a fazer esforço nesse sentido" e tem sido um chefe de Estado "aberto ao diálogo, um diplomata, que privilegia as relações internacionais e nesse momento está a procurar intervir um pouco mais em cooperação com o Governo, na questão das questões internas de desenvolvimento", afirmou Mari Alkatiri, que minimizou o risco de uma dissolução do governo, liderado por Matan Ruak, que chegou a ser uma promessa de campanha eleitoral.

"Eu nunca acreditei nesse slogan da campanha", disse Mari Alkatiri.

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