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Imprensa brasileira denuncia alegadas irregularidades de Bolsonaro quando era deputado

De acordo com o site, o gabinete de Jair Bolsonaro, que foi deputado federal por 28 anos até 2018, fez movimentações financeiras avultadas em dinheiro vivo.
Domingos Grilo Serrinha e correspondente no Brasil 15 de Março de 2021 às 16:42
Jair Bolsonaro minimizou eventual candidatura de Lula da Silva às eleições Presidenciais do próximo ano
Jair Bolsonaro minimizou eventual candidatura de Lula da Silva às eleições Presidenciais do próximo ano FOTO: Reuters

Uma série de reportagens especiais de investigação publicadas esta segunda-feira pelo site de notícias brasileiro UOL, do grupo jornalístico Folha de S. Paulo, revela movimentações financeiras alegadamente suspeitas feitas pelo presidente Jair Bolsonaro quando era deputado, muito semelhantes às que levaram o Ministério Público (MP) a denunciar um dos filhos dele, o hoje senador Flávio Bolsonaro, por corrupção, organização criminosa e branqueamento de capitais. As reportagens do UOL tiveram forte repercussão nos meios políticos de Brasília, mas, na prática, não deverão ter maiores consequências além de arranharem ainda mais a imagem do presidente, pois a lei brasileira não permite que um chefe de Estado seja processado e julgado por eventuais crimes cometidos antes de assumir a presidência.

De acordo com o site, o gabinete de Jair Bolsonaro, que foi deputado federal por 28 anos até 2018, fez movimentações financeiras avultadas em dinheiro vivo e com características que podem configurar o crime conhecido nos meios políticos como "rachadinha", também detetado nos gabinetes de Flávio e do outro filho político do atual presidente do Brasil, o vereador Carlos Bolsonaro. A "rachadinha" consiste na prática de políticos contratarem assessores por altos ordenados e depois obrigarem-nos a devolver para um "saco azul" a maior parte do que recebem, enriquecendo quem os contratou e ficando com uma pequena parte como compensação, muitas vezes sem nem mesmo terem de ir trabalhar.

Os dados foram obtidos pelo Ministério Público através da quebra de sigilos bancários e fiscais de mais de 100 suspeitos, entre eles Flávio Bolsonaro. Jair Bolsonaro não foi investigado, mas dados de movimentações financeiras suspeitas feitas por assessores dele acabaram por ser detetadas no cruzamento de informações.

Com base nesses dados, o Ministério Público denunciou Flávio Bolsonaro por corrupção em Outubro do ano passado, mas o processo está parado e poderá nem mesmo seguir adiante. Juizes do Superior Tribunal Federal que já decretaram outras decisões favoráveis ao clã Bolsonaro anularam em Fevereiro passado a autorização do juiz do caso para a quebra dos referidos sigilos, esvaziando dessa forma as provas e indícios que iriam ser usados contra o filho do presidente.

Segundo o UOL diz ter apurado, depois de analisar durante meses 607.552 movimentações financeiras, as práticas que levaram à denúncia contra Flávio Bolsonaro já eram praticadas pelo pai dele, Jair Bolsonaro, muito antes. Assessores do então deputado e hoje presidente sacavam grandes somas em dinheiro vivo, dificultando o rastreio desses montantes, e pessoas muito próximas a Jair Bolsonaro, como a ex-chefe de gabinete e uma das suas ex-mulheres, também movimentaram avultadas somas sempre em espécie, e fizeram negócios, nomeadamente imobiliários, pagando sempre em dinheiro vivo.

Mesmo que as denúncias de desvio de dinheiro público venham a ser confirmadas e aceites pelo Ministério Público, este não poderá fazer outra coisa a não ser esperar antes de, se for o caso, iniciar um processo contra o hoje presidente do país. Bolsonaro, tal como aconteceu com o seu antecessor, Michel Temer, alvo de várias denúncias por corrupção, só poderá ser processado depois de deixar a presidência, no final de 2022, se não conseguir ser reeleito, ou de 2026, se conquistar um novo mandato.

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