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Jeff Bezos: O legado do multimilionário que Donald Trump quis vergar

Biógrafo compara-o a figuras como Leonardo Da Vinci, Albert Einstein e Steve Jobs.
Lusa 15 de Março de 2021 às 08:44
Jeff Bezos
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Na introdução do livro do fundador da Amazon, Jeff Bezos, "Inventar e Criar", cuja versão portuguesa será publicada em abril, o conhecido biógrafo Walter Isaacson compara-o com gigantes históricos como Leonardo Da Vinci, Albert Einstein e Steve Jobs.

Isaacson foi o autor da única biografia autorizada de Steve Jobs, cofundador da Apple e da Pixar, e escreve na introdução que Jeffrey (Jeff) Preston Bezos é um "verdadeiro inovador", o que o coloca no mesmo patamar dos outros sujeitos históricos sobre quem escreveu.

Esta visão contrasta de forma aguda com as críticas constantes do ex-presidente norte-americano, Donald Trump, e dos seus apoiantes na maior parte do seu mandato, durante o qual Bezos se tornou um dos alvos favoritos.

Trump, fiel ao hábito de inventar alcunhas desdenhosas para descrever antagonistas, começou a chamar o CEO da Amazon de "Jeff Bozo" em sessões de queixas publicadas no Twitter.

A aversão do então Presidente dos Estados Unidos a um dos maiores empresários do país estava relacionada com o facto do fundador e presidente da Amazon ser dono do influente jornal Washington Post, que Trump considerava persegui-lo.

No livro "Raiva", sobre Trump, Bob Woodward descreveu como o Presidente não acreditava que a redação do Washington Post fosse independente das opiniões de Jeff Bezos. Como tal, responsabilizava o empresário pelas notícias e editoriais que lhe desagradavam, considerando que Amazon, Washington Post e Jeff Bezos eram uma e a mesma coisa.

"O Amazon Washington Post enlouqueceu contra mim desde que perdeu o processo sobre impostos na internet no Supremo Tribunal há dois meses", escreveu Donald Trump na sua conta de Twitter, quando esta ainda existia, em julho de 2018.

O ex-Presidente dos Estados Unidos acusou várias vezes a Amazon de se aproveitar dos Correios, de não pagar os impostos devidos e de usar o Washington Post contra ele.

A animosidade entre Trump e Bezos permeou várias esferas, causando a desvalorização ocasional das ações da Amazon e levando a um escândalo relacionado com o tabloide National Enquirer, aliado de Trump, que Bezos acusou de chantagem por causa de uma relação extraconjugal.

A Amazon chegou a pedir, num processo contra o Governo norte-americano, que Donald Trump fosse obrigado a testemunhar depois de o Pentágono ter mudado de ideias em relação a um contrato de 10 mil milhões de dólares, que em vez de ser adjudicado à Amazon Web Services foi para as mãos da Microsoft.

Mas quando Trump saiu da Casa Branca, Bezos, 57 anos, continuava a ser o homem mais rico do mundo, a Amazon estava ainda mais poderosa e o Washington Post tinha-se tornado lucrativo. 

Apesar da contenda permanente, Bezos e as suas empresas acabaram por sair relativamente incólumes do feudo com o ex-Presidente.

Os verdadeiros problemas do empresário com legisladores surgiram com as investigações da Câmara dos Representantes, que passou a ser liderada pelos democratas no início de 2019.

Foi isso a que o mundo assistiu em julho de 2020, quando Bezos foi chamado ao Comité Judiciário para responder por alegações de abuso de posição dominante da Amazon.

O empresário formado em Princeton usou a oportunidade para enquadrar a sua história de vida na mitologia do sucesso norte-americano: uma em que o trabalho árduo, a curiosidade incessante e uma disciplina férrea resultam invariavelmente na glória social e fortuna abastada, independentemente da humildade das origens.

O empresário lembrou como a mãe o teve aos 17 anos e como o pai adotivo fugiu sozinho da Cuba comunista aos 16 anos, encontrando refúgio nos Estados Unidos. Contou as lições que aprendeu com o avô no seu rancho no Texas e como o seu pendor inventivo se assomou precocemente, tornando-o num inventor de garagem durante a adolescência.

O estilo narrativo que Bezos usou, para persuadir os congressistas da nobreza e justiça do poderio da Amazon, foi similar ao encontrado nas cartas aos acionistas que compõem "Inventar e Criar" e até nos correios eletrónicos enviados aos funcionários da empresa.

É um estilo criativo, otimista, humilde a espaços, mas consciente do domínio que exerce. Jeff Bezos não é apenas o homem mais rico do mundo e o dono de um dos jornais mais influentes da atualidade; a empresa que criou, Amazon, mudou os paradigmas do retalho, da logística e da computação na nuvem.

Já havia indícios do impacto profundo que a Amazon ia ter no mundo moderno muito antes de tudo isto se concretizar e de Bezos se tornar 'persona non grata' na Casa Branca de Donald Trump.

Pouco depois do início de operações da retalhista 'online', quando esta era ainda uma 'startup', Jeff Bezos gracejou a capa da revista Time como "Pessoa do Ano 1999", pela revolução que estava a liderar no comércio eletrónico.

Duas décadas depois, com uma fortuna avaliada em 179 mil milhões de dólares, anunciou que vai deixar o cargo de CEO (presidente do conselho executivo) da Amazon na segunda metade de 2021, uma saída que provocou enorme surpresa em Wall Street e na imprensa especializada, dado o seu poder e influência.

Segundo explicou aos funcionários, passará a presidente do conselho de administração, nomeando outro para o cargo de CEO, e tomou a decisão para se poder concentrar noutras iniciativas que foi criando ao longo do tempo, em especial o Bezos Earth Fund, um fundo dedicado a combater a crise climática, e a Blue Origin, companhia aeroespacial que pretende comercializar viagens ao espaço.

"No novo papel, pretendo focar as minhas energias e atenção em novos produtos e iniciativas incipientes", disse Bezos aos empregados da Amazon numa carta onde explicou a sua saída. O seu substituto, Andy Jassy, "é bem conhecido dentro da companhia", descreveu, considerando que ele vai ser "um líder excecional".

O magnata tem uma fortuna tão vasta que é comparável ao Produto Interno Bruto (PIB) de vários países - superior, por exemplo, ao da Estónia, Hungria ou Bulgária. A sua influência nas últimas décadas torna-o uma figura incontornável da mitologia económica, tecnológica e social dos Estados Unidos.

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