Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
6

Manuela, a criança guineense que a tia queria dar em casamento ao tio nunca festejou o 1 de junho

Em algumas etnias da Guiné-Bissau é normal a tia criar a sobrinha para depois dá-la em casamento com o próprio marido.
Lusa 1 de Junho de 2021 às 18:41
Guiné-Bissau
Guiné-Bissau FOTO: Getty Images
Manuela, 17 anos, é uma das muitas crianças guineenses que nunca festejaram o Dia Internacional da Criança devido aos maus-tratos, como o casamento forçado a que a própria esteve quase sujeita com um tio, de quem fugiu.

Para marcar o dia da criança, a Associação Amigos de Criança (AMIC) da Guiné-Bissau juntou dezenas de personalidades guineenses, essencialmente mulheres, para "um diálogo intergeracional" com meninas que "de uma forma ou doutra foram vítimas de maus tratos".

O enfoque foi dado às meninas que, em tempos, estiveram refugiadas no centro de acolhimento da AMIC, fugidas do casamento forçado, um fenómeno que o secretário-executivo da organização, Laudolino Medina, disse ser "transversal a todas as etnias" da Guiné-Bissau.

No período do pico do fenómeno, antes do jejum muçulmano ou na época da lavoura dos campos agrícolas, o centro de acolhimento da AMIC, situado no bairro de Enterramento nos subúrbios de Bissau, chega a receber semanalmente até cinco crianças fugidas do casamento forçado, contou Medina.

Foi o caso da Manuela, que esteve no centro durante dez dias quando fugiu de um casamento com um tio imposto pela tia, com o argumento de que estava já na idade de casar e que não podia negar "porque assim manda a tradição".

Em algumas etnias da Guiné-Bissau é normal a tia criar a sobrinha para depois dá-la em casamento com o próprio marido.

"Disseram-me que se fugisse daquele casamento podiam fazer-me coisas para me enlouquecer, ficar estéril ou então morrer. Disse-lhes que prefiro não ter filhos, enlouquecer ou morrer de que aceitar aquele casamento de uma pessoa que é mais velha do que o meu pai", explicou Manuela.

Agora com 17 anos, a viver com uma outra família, e a estudar no sétimo ano, quando em condições normais deveria estar a terminar o liceu, Manuela procurou asilo no centro da AMIC, para onde voltou hoje para o encontro promovido por Laudolino Medina a quem não se cansa de agradecer.

Não só rejeitou o casamento com o tio como ainda sancionou o facto de a tia não a ter posto na escola com o argumento de que poderia vir a negar o matrimónio.

Ao falar para as outras meninas que assistiram ao encontro, Manuela apelou para que todas continuem a estudar para assim poderem "um dia fazer a festa de 01 de junho para os seus filhos".

As palavras de Manuela deixaram alguns presentes com lágrimas nos olhos.

Entre as presentes, destacam-se as antigas ministras Nelvina Barreto e Magda Robalo, alta-comissária contra a covid-19, que nas suas intervenções reforçaram a importância da escolarização das raparigas para a mudança de mentalidades na sociedade guineense, dizem.

Ver comentários