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Mulher recorda adoção: "Os meus pais disseram a toda a gente que estava morta"

Sara-Jayne foi abandonada pelos progenitores por ser fruto de uma relação interracial.
Correio da Manhã 4 de Julho de 2019 às 16:17
Sara-Jayne King
Sara-Jayne King
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Uma menina de Johanesburgo, em África do Sul, foi dada para adoção em 1980, por ter nascido fruto de uma relação interracial, na altura do Apartheid. A criança foi criada por um casal de britânicos, no Reino Unido, onde esteve mais de 25 anos antes de regressar ao seu país de origem.

Sara-Jayne avança que não tinha quaisquer lembranças desse período, uma vez que tinha apenas sete semanas de vida quando foi entregue para adoção.

A jovem, atualmente com 34 anos, nunca aceitou os motivos que levaram os progenitores a querer entregá-la e, por isso, foi sempre uma criança que lutou contra o racismo. No entanto, esta mágoa fez com que Sara se tornasse uma criança e jovem violenta, com comportamentos de revolta.

"Nós acabamos por absorver e acreditar na forma como os outros nos vêem. Os meus colegas de escola tocavam nos meus cabelos e diziam que parecia lã de arame. Diziam que eu era diferente e fizeram com que acreditasse nisso", afirmou durante entrevista à BBC.

Com o decorrer dos anos, Sara sentiu que havia realmente algo errado com ela. Recordar a sua adoção fez com que ficasse desconfortável com a sua imagem.

Tirando as representações e referências a pessoas de origem africana transmitidas através da televisão britânica na década de 1980, Sara não conhecia a representação realista de alguém. Pelo contrário, a mulher afirma que a imagem passada não era "realista, nem lisonjeira".

Em Crowhurst, aldeia onde viveu até regressar a África do Sul, Sara- Jayne contou como foi a sua experiência.

"Acordava todas as manhãs e via galinhas e cordeiros nos campos. Os africanos eram vistos como seres de outro mundo. A minha escola enviava alimentos para crianças na Etiópia. Eu vivi uma realidade diferente. Experimentei o que era pertencer à classe média", continuou.

A mulher afirmou ainda no decorrer da entrevista que viu imagens que nunca mais irá esquecer, como crianças cobertas de moscas. "Eram imagens para lamentar, mas também para agradecer. Estou grata por ter sido resgatada daquela realidade", disse.

Jayne garante que a família adotiva tudo fez para a incluir no ‘mundo deles’. No entanto, o esforço nem sempre foi conseguido. Com 14 anos descobriu uma carta escrita pela mãe biológica pouco tempo após ter sido adotada, onde explicava os motivos e o processo da adoção.

"Os meus pais disseram a toda a gente que estava morta", confirmou. A mãe biológica de Sara manteve um caso extra-conjugal interracial. Quando ficou grávida, a mulher não sabia quem era o pai e por isso optou por ter o bebé.

Na altura do nascimento de Sara, a lei da imoralidade em África do Sul proibia qualquer relacionamento sexual interracial, pelo que a menina era fruto de um ‘crime’.

Nesse momento, o casal (juntamente com o médico de família) avançou que Karoline (nome que tinha na altura) sofria de uma doença renal rara e que por isso precisava de um tratamento avançado, só disponível em Londres. No entanto, quando chegaram à cidade, a criança foi logo entregue para adoção.

No regresso a casa, aqueles que deveriam ter sido os pais de Sara, disseram a todos os presentes que a filha tinha morrido.

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