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"Ninguém nos diz como deve ser a nossa Lei": Talibãs aplicam corte de mãos e execuções como castigos

Um dos líderes do grupo diz que amputação de membros "é necessária para a segurança".
Pedro Zagacho Gonçalves(pedrogoncalves@cmjornal.pt) 24 de Setembro de 2021 às 12:42
Execuções dos talibãs aconteciam em estádios
Execuções dos talibãs aconteciam em estádios FOTO: Getty Images

Mullah Noorudin Turabi, um dos fundadores dos talibãs e responsável pela aplicação da dura interpretação que o grupo faz da Lei islâmica garante que os castigos corporais, como a amputação de mãos e as execuções de quem os talibãs considerem ‘criminosos’ vão voltar a ser aplicados no Afeganistão.

Em entrevista à Associated Press (AP), Turabi rejeita as críticas anteriormente dirigidas ao grupo, quando governava o país em meados dos anos 90, e que agora poderão voltar, por parte da comunidade internacional. Na altura, as execuções a sangue frio e amputações eram feitas em estádios com público nas bancadas. "Toda a gente nos criticou pelos nosso castigos em estádios, mas nós nunca dissemos nada a ninguém sobre as leis ou castigos que aplicam. Ninguém nos vai dizer como deve de ser a nossa Lei. Nos vamos seguir o Islão e basear as nossas leis no Corão", atira o responsável, de cerca de 60 anos, que chegou a ser ministro da Propagação da Virtude e Prevenção do Vício, uma espécie de polícia religiosa.

Na última vez que os talibãs governaram o Afeganistão, os castigos aconteciam também na mesquita de Eid Gah, para além dos já referidos estádios. Calcula-se que milhares de homens tenham sido alvo dos violentos castigos. Os julgamentos e condenações não eram públicos e o poder judicial estava nas mãos dos clérigos Islâmicos, cujo único conhecimento da Lei era o da Lei Islâmica, na sua vertente profundamente conservadora e religiosa.

Para os condenados por homicídio, a sentença era a execução com um tiro na cabeça, feita pela família do condenado, que tinha a hipótese de aceitar "dinheiro sujo" ou "dinheiro de sangue" para não matar o arguido. Para os ladrões o castigo era a amputação de uma mão. Caso o roubo fosse levado a cabo junto a uma estrada, passavam a ser cortados um pé e uma mão.

"Cortar as mãos é necessário para a segurança", assegura Mullah Noorudin Turabi, adiantando que o gabinete responsável pelas punições ainda está "a desenvolver as suas políticas" e a analisar se os castigos voltarão a ser feitos em público.

"Nós mudámos do passado", afirma o responsável sobre a aceitação da tecnologia atual pelos talibãs, sublinhando que o facto de poderem "atingir milhões de pessoas" com os vídeos das execuções e outros castigos, "tem um efeito de prevenção" dos crimes.

"Tínhamos completa segurança em todas as partes do país", diz Mullah Noorudin Turabi sobre o final dos anos 90, em que ele estava no Governo e algumas regras instauradas eram a proibição de ouvir música, a obrigação de usar turbante em todas as instâncias governamentais, a proibição da prática do desporto. Havia ainda uma ‘polícia’ do Ministério da Propagação da Virtude e Prevenção do Vício que obrigava os homens a irem rezar à mesquita cinco vezes por dia e espancavam os que aparassem a barba.

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