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Correio da Manhã

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Operadora de saúde elogiada por Bolsonaro acusada de usar doentes Covid como cobaias e levá-los à morte

Denúncias dão conta de que a Prevent Senior usava medicamentos comprovadamente ineficazes e tiravam doentes em estado grave das UCI.
Domingos Grilo Serrinha e correspondente no Brasil 28 de Setembro de 2021 às 18:46
Prevent Senior
Prevent Senior FOTO: Direitos Reservados

Numa das denúncias mais assustadoras vindas a público desde o início da pandemia de Coronavírus no Brasil, a operadora de saúde Prevent Senior, de São Paulo, está a ser acusada de levar doentes de Covid-19 à morte tratando-os com medicamentos comprovadamente ineficazes mas baratos e retirando doentes em estado grave dos cuidados intensivos antes de terem possibilidade de se recuperar. As denúncias contra a Prevent Senior, especializada em atendimento a idosos e repetidamente elogiada pelo presidente Jair Bolsonaro, feitas inicialmente pelo jornalista Guilherme Balza, da Globo news e depois confirmadas e ampliadas por outras fontes, chocaram o Brasil na semana passada e foram confirmadas esta quarta-feira a uma comissão de investigação (CPI) do Senado pela advogada Bruna Morato, representante de médicos da operadora que se rebelaram contra essas e outras práticas que podem ter custado muitas vidas.

O próprio CEO da Prevent Senior, Pedro Batista Júnior, confirmou semana passada à mesma CPI que a Prevent Senior alterava o CID, Código Internacional de Doenças, 14 dias após o doente ter dado entrada num dos hospitais da rede com um quadro de Covid-19, mas alegou que isso era necessário para tirar o enfermo da área de isolamento quando os sintomas da infeção desapareciam, mesmo que ele estivesse ainda num quadro grave de sequelas. Só que, com a troca do CID para o CID de outra doença, quando ocorria a morte do paciente o que constava na declaração de óbito era outra causa qualquer, não a Covid-19, e assim a operadora surgia para o país como um fantástico exemplo de sucesso na luta contra o Coronavírus.

À medida que as denúncias se avolumam, ficam mais nítidas as ligações entre a operadora e o chamado "gabinete paralelo", grupo de negacionistas fanáticos que assessoram erroneamente até hoje o presidente Bolsonaro na área da saúde, criticando o isolamento social, o uso de máscaras e as vacinas, e defendem medicamentos já condenados pela OMS, Organização Mundial da Saúde. O que ainda não está claro é se foi Bolsonaro que pediu à Prevent Senior um estudo que desse força às suas mirabolantes teses sobre a Covid-19 ou se foi a operadora que tomou a iniciativa e a levou até ao governo, que a perfilhou imediatamente.

 

COBAIAS HUMANAS
Outra irregularidade cuja revelação estarreceu o país inteiro foi um estudo ilegal feito pela Prevent Senior no ano passado com 636 doentes internados, tratados sem sua autorização ou conhecimento das famílias com medicamentos ineficazes, como a Cloroquina e a Hidroxicloroquina, defendidos insistentemente até hoje pelo presidente Jair Bolsonaro, que na semana passada, em discurso nas Nações Unidas, defendeu esse tratamento. O estudo feito pela Prevent Senior, sem autorização dos órgãos competentes e à revelia de doentes e suas famílias, "constatou" através da adulteração dos resultados que era possível curar a Covid-19, proeza citada por Bolsonaro como uma grande vitória do Brasil e do seu governo, que apoiou os testes, mas hoje se sabe que levou à morte de pessoas usadas como cobaias, mortes essas ocultadas pela operadora.

De acordo com as denúncias que vieram a público, a operadora colocava nas declarações de óbito de pacientes de Covid-19, ainda não é possível estimar quantos, causas diferentes para a morte, mas a CPI já constatou várias fraudes desse tipo cruzando prontuários médicos a que teve acesso com as certidões mortuárias. Por isso, o Ministério Público Federal criou uma força especial de procuradores para analisar as graves acusações contra a operadora, ao mesmo tempo que a Alesp, Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, aprovou na noite desta segunda-feira a criação de uma nova CPI para apurar exclusivamente as práticas da Prevent Senior, que alega estar a ser vítima de uma grande ação difamatória levada a cabo por médicos que demitiu e por concorrentes no mercado de seguradoras de saúde.

 

SUCESSÃO DE HORRORES
Na sucessão de práticas aterradoras dentro da rede de hospitais Sancta Maggiore, da Prevent Senior, e que já foram comparadas às feitas em campos de concentração da Alemanha nazi, ganha destaque a retirada precipitada de doentes de Covid-19 em estado muito grave das UCIs, Unidades de Cuidados Intensivos. O próprio CEO da operadora reconheceu que os hospitais da rede retiravam pacientes graves dos cuidados intensivos após 14 ou 21 dias nessas unidades, dependendo do caso, e os transferiam para o que ele chamou "leitos paliativos".

O senador Otto Alencar, que é médico, ficou transtornado ao ouvir isso e acusou a Prevent Senior da prática criminosa da eutanásia, retirando seres humanos gravemente doentes de unidades onde poderiam, com mais tempo, recuperar-se, e enviando-os para leitos onde eles passariam a receber apenas morfina e outras medicações sem eficácia contra a Covid-19, mesmo a empresa sabendo que eles fatalmente morreriam em poucos dias. Após essa denúncia, surgiram na imprensa vários relatos de pessoas que estiveram internadas num dos hospitais da Prevent Senior em estado grave e também iam ser transferidos para um leito paliativo para terem "uma morte digna e sem sofrimento", como a operadora dizia, mas cujas famílias impediram, inclusive recorrendo à justiça, e hoje essas pessoas estão vivas e totalmente recuperadas.

As denúncias avançadas pelos médicos representados pela advogada Bruna Morato dão ainda conta de que a Prevent Senior, operadora de saúde criada anos atrás por dois irmãos, um médico e um motorista de ambulância, que cresceram vertiginosamente e hoje faturam perto de 900 milhões de euros por ano, estavam testes igualmente não recomendados, como a tentativa de curar a Covid-19 com inalação de Eparina e inoculação de gás Ozónio, proibido no Brasil, pelo ânus. Uma outra coisa que chamou a atenção dos senadores e da imprensa é o lema adotado pela operadora de saúde, "Lealdade e Obediência", exatamente o mesmo usado por Adolf Hitler
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