Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
6

"Ou paras de gravar ou mato-te, maricas!": Revolta após Samuel ser espancado até à morte

Manifestantes pelos direitos LGBT enchem as ruas das principais cidades espanholas. Um jovem foi morto durante uma saída à noite em Corunha num bárbaro ataque perpetrado por um grupo de sete pessoas.
Iúri Martins(iurimartins@cmjornal.pt) 6 de Julho de 2021 às 04:51
Manifestantes pelos direitos LGBT enchem as ruas das principais cidades espanholas. Um jovem foi morto durante uma saída à noite em Corunha num bárbaro ataque perpetrado por um grupo de sete pessoas.
Por Iúri Martins(iurimartins@cmjornal.pt) 6 de Julho de 2021 às 04:51
A revolta saiu à rua em Espanha. Um bárbaro ataque perpetrado por um grupo de pessoas, em Corunha, roubou a vida a um jovem de apenas 24 anos.

O crime remonta à madrugada de sábado (2 de julho). Samuel Luiz Muñiz, auxiliar de enfermagem, saía à noite após vários meses sem muitos contactos com a vida noturna, muito devido à responsabilidade do seu trabalho. O jovem, com origem brasileira, cuidava de idosos num lar em Padre Rubinos, Corunha.

A meio da noite, Samuel e Lina - uma das melhores amigas - decidiram sair do pub onde estavam com um grupo de amigos para conseguirem fumar um cigarro. Mas, em poucos minutos, a noite tornou-se num pesadelo difícil de esquecer.

Locais das agressões
Lina fez uma videochamada com Vanessa, uma das amigas que tinha ficado na discoteca, e Samuel acabou por entrar nessa conversa. Enquanto partilhavam algumas gargalhadas, trocando o telefone entre mãos, um casal passou e a animação de Lina, Samuel e Vanessa rapidamente se tornou num clima de tensão.

"Um rapaz gritou connosco, disse para pararmos de gravar", revelou Lina ao La Voz de Galicia. "Tentámos explicar que estávamos a fazer uma videochamada e a mostrar a uma amiga onde estávamos". Mas de nada valeu. "O rapaz era dos que queria confusão e era a nossa vez", afirmou.

Foi então que o agressor partiu em direção a Samuel e o ameaçou: "Ou paras de gravar ou mato-te. Maricas". Samuel reagiu e foi agredido de imediato com um soco violento na cara. O jovem de 24 anos caiu no chão onde continuou a ser golpeado.

Só a chegada de um jovem de origem africana impediu que logo ali a situação tomasse proporções trágicas. O agressor afastou-se.
Atacado até à morte
Surpreendido com tudo o que se tinha passado, Samuel pediu a Lina para voltar ao pub para ir buscar o seu telemóvel. Mas, quando a amiga de Samuel voltou à rua, o jovem tinha desaparecido. 

Metros mais à frente, um grande aparato com várias pessoas a correr em direção à Plaza de Pontevedra denunciava o pior. "Ouvi alguém gritar: maricas de merda!", revelou Lina. Quando chegou ao local, Samuel estava inconsciente, deitado no chão. Os agressores tinham fugido.

As ambulâncias e a polícia demoraram cerca de 10 minutos a chegar. Todos os esforços foram feitos para trazer Samuel de volta à vida, mas já nada havia a fazer. As agressões e as lesões provocadas pelo ataque foram fatais.
Sete contra um
Pelo menos 13 pessoas foram localizadas e prestaram declarações às autoridades. No entanto, a polícia acredita que apenas sete estejam diretamente envolvidas nos ataques que resultaram na morte de Samuel.

Várias testemunhas afirmam que Samuel foi pontapeado e esmurrado enquanto era insultado: "seu maricas do c******".

A versão defendida pelos amigos de Samuel, de que tudo começou numa discussão fútil e acabou com a agressão selvagem, é comprovada pelas imagens recolhidas pelas câmaras de vigilância dos bares e estabelecimentos na zona do ataque.

A polícia mantém todas as hipóteses em aberto e o Governo sublinha que ainda é cedo para tratar este crime como um ataque homofóbico.
Pai de Samuel pede justiça
Devastado com a notícia da morte do filho, o pai de Samuel Luiz Muñiz dirigiu-se às famílias dos agressores: "Eu pergunto às famílias daqueles que mataram o meu filho como se sentiriam se estivessem no meu lugar".

Maxsoud Luiz pede que seja feita justiça, que todos os culpados sejam presos. O pai de Samuel acredita que o filho apenas queria travar a discussão.
Políticos e famosos reagem ao crime
O cantor espanhol Alejandro Sanz foi uma das primeiras figuras públicas a reagir ao crime. "O facto da orientação sexual do Samuel nos preocupar mais do que o instinto criminoso dos assassinos diz muito sobre o que somos", atirou no Twitter.



Irene Montero, deputada do Podemos, também recorreu ao Twitter para deixar uma mensagem de força à família e amigos de Samuel.

"Todo o amor para a família e entes queridos do Samuel nestes tempos difíceis. Devemos construir entre nós uma sociedade mais livre, na qual não deixemos espaço para o ódio", disse.

Espanha une-se contra a homofobia
Corunha, Madrid, Barcelona. Milhares de pessoas saíram às ruas de várias cidades em Espanha numa manifestação pelos direitos dos LGBT+.
A carregar o vídeo ...
Milhares enchem ruas de Espanha em defesa dos direitos LGBTI
Uma multidão encheu a praça central de Madrid e vários ativistas marcharam pelas ruas mais importantes de Barcelona com cânticos e bandeiras coloridas.

O partido de esquerda, Podemos, recorreu às redes sociais para dizer que a resposta à onda de ódio LGBT-fóbico que acabou com a vida do Samuel em Corunha é avassaladora.
Milhares manifestam-se pelos direitos LGBT em Espanha após a morte de Samuel
Milhares manifestam-se pelos direitos LGBT em Espanha após a morte de Samuel
Milhares manifestam-se pelos direitos LGBT em Espanha após a morte de Samuel
Milhares manifestam-se pelos direitos LGBT em Espanha após a morte de Samuel
Milhares manifestam-se pelos direitos LGBT em Espanha após a morte de Samuel
Milhares manifestam-se pelos direitos LGBT em Espanha após a morte de Samuel
278 crimes de ódio em 2019
Durante o ano de 2019, em Espanha, foram denunciados 278 crimes de ódio relacionados com a orientação sexual ou identidade de género. Um aumento de 8,6% relativamente a 2018.

A Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia diz que apenas uma fração dos crimes de ódio são denunciados às autoridades.