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Sara, a menina síria de oito anos que ainda não sabe que o irmão morreu

Perdeu o irmão num dos ataques. Em nove dias, 218 civis morreram e os feridos são já mais de 650.
Mariana Branco/SÁBADO 19 de Outubro de 2019 às 07:55
Síria
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A ofensiva turca bombardeou repetidamente na quinta-feira a localidade fronteiriça de Qamishli, no nordeste da Síria. Centenas de pessoas em carros, táxis, camiões e motas tentaram fugir de mais um ataque da aviação turca e dos rebeldes sírios aliados de Ancara que combatem no terreno.

Apesar de ao fim da noite ainda não existir a confirmação de nenhuma vítima mortal, aquela região faz o luto pelos mortos diariamente, escreve o El País. Em nove dias da ofensiva turca ao norte da Síria 218 civis morreram e os feridos são já mais de 650. Os bombardeamentos mataram 18 crianças e deixaram hospitalizadas pelo menos 35.

Sara acha que o irmão ainda está vivo
A família Al Garib é uma das que mais sofreu com os ataques. No hospital Al Salam, Yusef Al Garib tentou não disfarçar a dor quando a sua filha Sara, de oito anos, perguntou pelo irmão Mohamed, de 11. "Está no quarto ao lado, mal como tu, mas rapidamente vem brincar contigo", respondeu o homem de 45 anos. Com os olhos em lágrimas pedia a cumplicidade dos enfermeiros e familiares que ali se encontravam.

Sara, que perdera a perna esquerda quando um rocket turco atingiu o quintal de sua casa, não sabia que tinha perdido o seu único irmão.

"É uma guerra entre políticos, sem sentido, na qual se nos vai o sangue a nós que estamos no meio. Já não sabemos quem nos protege. Os americanos? Os russos? O exército sirio? Ou são todos aliados da Turquia?", questionou Yusef.

"Durante a noite tenho que dormir na cadeira ao lado da cama dela porque a Sara não consegue que eu lhe solte a mão", explicou Nariman, a mãe.

Sara foi admitida num dos três hospitais privados de Qamishli, com uma capacidade de 50 camas cada. A direção do hospital garantiu que apenas cobra às famílias aquilo que elas podem pagar. "Somos o hospital mais perto dos bairros bombardeados, por isso muitos feridos vêm para aqui", explicou a diretora do hospital, Ibtisam Hosin. "Estamos preparados para o caso de ocorrerem mais bombardeamentos, mas o nosso stock de medicamentos é limitado".

A criança precisa de uma operação que não pode ser realizada no norte da Síria, explicou o pai, mas nem as organizações não-governamentais podem ajudar Sara: a maioria deixou de ter autorização para operar em território sob o controlo de Damasco desde que, no domingo, as milícias curdas e as tropas sírias assinaram um acordo.

Na passada quarta-feira, a Turquia lançou uma operação militar, que inclui alguns rebeldes sírios, contra a milícia curda, grupo que considera terrorista, mas que é apoiado pelos ocidentais para combater o grupo extremista do autoproclamando Estado Islâmico.

A Turquia justifica a incursão das tropas turcas no norte da Síria com a necessidade de acabar com os elementos da milícia curda Unidades de Proteção Popular (YPG), considerados "terroristas" por Ancara.

Segundo o último balanço do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) desde o início da ofensiva turco pelo menos 300 mil pessoas foram deslocadas.

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