Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
1

Terminaram as buscas

O governo haitiano decidiu ontem suspender as buscas por sobreviventes, afirmando que a prioridade agora é limpar os destroços e ajudar os feridos, de modo a que situação possa ir lentamente regressando à normalidade. Já nos próximos dias deverá ficar pronto o campo de desalojados que está a ser montado pela missão da Autoridade Nacional de Protecção Civil portuguesa em Port-au-Prince.
24 de Janeiro de 2010 às 00:30
Port-au-Prince tenta retomar a normalidade. Já há comida à venda nas lojas, embora ainda seja cara, e alguns bancos reabriram as suas portas.
Port-au-Prince tenta retomar a normalidade. Já há comida à venda nas lojas, embora ainda seja cara, e alguns bancos reabriram as suas portas. FOTO: Shannon Stapleton/Reuters

"Acabou a esperança de encontrar mais sobreviventes", confirmou a porta--voz do Gabinete de Coordenação dos Assuntos Humanitários da ONU, horas depois de o governo ter dado ordem para suspender as buscas. A prioridade é cuidar dos vivos, uma tarefa em que a missão portuguesa no Haiti pode dar uma ajuda, através da abertura de um campo com capacidade para acolher cerca de 400 desalojados. "Em princípio, até ao final do mês vamos conseguir fazê-lo", explicou António Saroca, chefe da equipa de logística da missão portuguesa. Depois de concluída a montagem, a equipa regressará a Portugal. "A AMI tem feito uma campanha de angariação de fundos e vai permanecer no terreno pelo menos três meses, mas nós só estaremos cá para concretizar a montagem do campo de desalojados."

Ontem o trabalho decorreu "debaixo de um sol abrasador" e sem qualquer pausa, apesar do fim-de--semana. "Foi um dia como os outros", mas em que a cidade "está mais calma. "O grau de destruição é acentuado, mas vejo nas pessoas vontade de recomeçar", afirmou António Saroca ao CM.

BEBEU A PRÓPRIA URINA PARA SOBREVIVER

Um jovem de 22 anos foi na sexta-feira à noite resgatado dos escombros da sua casa em Port-au--Prince por uma equipa de salvamento israelita, horas antes deo governo dar por terminadas as operações de busca. O jovem, que estava extremamente debilitado, disse aos elementos da equipa de resgate que sobreviveu bebendo a própria urina.

Horas antes deste resgate tinham sido retiradas dos escombros duas idosas, uma de 69 e 84 anos, mas estavam ambas muito enfraquecidas e não havia garantias de que sobrevivessem.

MAIS DE 120 MIL VÍTIMAS DO SISMO EM BALANÇO OFICIAL

O mais recente balanço oficialde vítimas do sismo que arrasou Port-au-Prince era ontem de 120 mil mortos, mas fontes governamentais temem que o número final possa ultrapassar as 200 mil vítimas. "Até ao momento foram recolhidos 120 mil corpos, fora aqueles que foram enterrados pelas famílias", admitiu um responsável governamental, no dia em que se realizaram os primeiros funerais oficiais após o sismo, incluindo o do arcebispo Joseph Serge Miot, cujo corpo foi encontrado sob as ruínas da catedral de Port-au-Prince. Durante a cerimónia, o presidente haitiano René Preval foi vaiado por populares devido à demora na distribuição da ajuda humanitária.

PORMENORES

PEDRITO AJUDA AMI

O toureiro Pedrito de Portugal viajou a expensas próprias para o Haiti, para ajudar a missão da AMI no terreno. "Tinha de vir ajudar", afirmou à Lusa em Port-au-Prince. Ontem, ajudou a carregar alimentos e gasolina para o acampamento da missão portuguesa.

ALIMENTOS E TRABALHO

O presidente da AMI, Fernando Nobre, afirmou ontem que as garantias de alimentação e de trabalho são fundamentais para a reconstrução do Haiti e recuperação da sua população. "Esforço de estabilização política é fundamental", disse à Lusa.

REFORMAS PROFUNDAS

O secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, disse ontem à Lusa que o apoio humanitário ao Haiti deve ser acompanhado por reformas profundas, e que uma reunião internacional precoce pode ser uma "oportunidade perdida" se não servir para preparar uma "intervenção de fundo".

Ver comentários