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Correio da Manhã

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Um chefe de governo mais que perfeito

Conhecem-se há vinte anos, mas só em 2004 o primeiro-ministro se aliou ao agora presidente. Partilham o desejo da mudança, a ruptura com a era Jacques Chirac. Após a cerimónia de posse, os dois amigos foram fazer jogging.
18 de Maio de 2007 às 00:00
Em Março passado, durante a pré-campanha, Nicolas Sarkozy qualificou François Fillon, um dos arquitectos da sua vitória, como “mais que perfeito”. Ontem, sem surpresa, nomeou-o chefe de governo. Embora se conheçam quase há vinte anos, Fillon só se aliou ao agora presidente da França após a derrota da direita nas eleições regionais de Abril de 2004 e do ‘não’ dos franceses no referendo de 2005 sobre a Constituição Europeia. Partilham as ideias reformistas – os discursos de ambos reflectem essa harmonia – e o gosto pelo jogging. Aliás, logo depois da cerimónia de posse, Sarkozy e Fillon foram desenferrujar as pernas no Bois de Boulogne.
“Servirei a França com paixão e confiança no futuro, para renová-la, defender a sua identidade, dar-lhe um lugar proeminente” prometeu Fillon, após a passagem de testemunho feita pelo seu antecessor Dominique de Villepin no Palácio de Matignon. O novo primeiro-ministro dispôs-se ainda a respeitar os compromissos assumidos e prometeu ouvir todos, “porque uma França em movimento necessita de todos”.
Mas para que possa cumprir estas promessas será preciso que o seu partido, União para um Movimento Popular (UMP), consiga assegurar maioria parlamentar nas legislativas de Junho, já que uma coabitação com a esquerda poderá comprometer a execução da sua agenda reformista.
A seu favor joga, contudo, a sua conhecida fibra de ‘gaullista social’ e o seu temperamento calmo. Proveniente da ala esquerda do UMP, Fillon já provou, durante as quatro vezes que foi ministro, que é um hábil negociador, talento que lhe facilitará o diálogo com os sindicatos, que se adivinha difícil face às reformas que pretendem dar um ‘golpe’ nos privilégios sociais adquiridos.
GOVERNO ANUNCIADO HOJE
É para este diálogo – e para as legislativas – que se vai preparar o governo, cujos titulares serão revelados hoje. Mas ontem já circulavam rumores sobre os nomes.
O ex-primeiro-ministro Alain Juppé deverá ser o ‘n.º 2’ do executivo e ficar com a pasta do Desenvolvimento Sustentado. O socialista Bernard Kouchner está dado como certo na diplomacia, enquanto o centrista Hervé Morin é o nome de que se fala para a Defesa, pasta que era de Michèle Alliot-Marie, que deverá transitar para o Interior. Para os ministérios da Imigração e da Justiça, fala-se em dois fiéis sarkozistas, Brice Hortefeux e Rachida Dati.
Sarkozy prometeu reduzir para metade (15) o número de ministérios e equilibrar as nomeações entre homens e mulheres.
PERFIL
Director de campanha de Sarkozy, o senador François Fillon tem 53 anos. Nasceu no seio de uma família gaullista de Sarthe e estudou Direito e Ciências Políticas. É casado com a galesa Penelope, com quem tem cinco filhos.
BLAZER MUITO COMENTADO
Fillon e a sua mulher Penelope chegaram ao Palácio de Matignon a pé, apesar da chuva miudinha que caía. À sua espera estava o casal Villepin, que os recebeu calorosamente. Muito comentado foi o original blazer de Marie-Laure Villepin. A condizer com a ocasião – e a revelar o sentido de humor da mulher do primeiro-ministro cessante –, o casaco, de fundo branco, tinha uns recortes azuis em que se podia ler “adios, bye bye, cia ciao, salut”.
Para facilitar a transição, Villepin, muito aplaudido pelo pessoal do Matignon, entregou ao seu sucessor um documento de ‘transmissão republicana’, uma compilação de notas ministeriais, e desejou-lhe boa sorte.
SIABA MAIS
15 será o número de ministérios do governo de Nicolas Sarkozy, isto é metade do anterior. As mulheres terão voz activa no executivo.
4 pastas ministeriais geriu Fillon. Foi ministro do Ensino Superior e Investigação (1993-95), de Tecnologias da Informação (1995-97), dos Assuntos Sociais (2002-04) e Educação (2004-05).
REFORMA DAS PENSÕES
Fillon é considerado o ‘pai’ da polémica reforma das pensões implementada em 2003, durante o segundo mandato de Chirac.
EX-ALIADO DE CHIRAC
Gaullista, o novo primeiro-ministro foi muito próximo de Jacques Chirac, mas aliou-se a Sarkozy depois de ser afastado do seu governo.
TAUROMAQUIA
Fillon é grande amante da tauromaquia, do alpinismo do jogging e do automobilismo. Participa todos os anos nas 24 horas de Le Mans ao volante de um Ferrari 250 GTO.
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