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Almeida Henriques

O país das dívidas

É preciso levar ao limite reformas corajosas na proteção dos cidadãos endividados.

Almeida Henriques 28 de Julho de 2015 às 00:30
A superficialidade é uma marca do nosso tempo. As redes sociais promovem-na à saciedade e na blogosfera um lixo epidérmico acumula-se. Na comunicação social é também raro ver trabalhos com a profundidade de análise que os assuntos sérios (e as pessoas) merecem. Às vezes as notícias parecem-se demasiado com a telenovela. O "país real" aparece coberto de espuma. Cinzenta-pessimista ou cor-de-rosa-cómica. Felizmente há exceções.

É o caso do CM na sua causa pela natalidade em Portugal e foi o caso da reportagem de Victor Moura-Pinto, na TVI, na passada semana, para falar do "país das dívidas": o sobre-endividamento que atingiu até à medula a qualidade de vida e a dignidade de centenas de milhares de famílias portuguesas. Algumas apanhadas de surpresa, como muitos pais e avós fiadores de créditos imprudentes.

A ideia de que a crise passou induz a perceção errada de que estes problemas se estão a resolver por si. Ainda há pouco tempo, o Banco de Portugal – que tem feito um excelente trabalho neste domínio, com a Direção-Geral do Consumidor – atualizou os números das famílias que falharam o pagamento dos empréstimos da casa. Nos primeiros meses do ano, esse número aumentava a um ritmo de 71 novos casos por dia. Havia então 154 mil famílias em incumprimento no crédito à habitação.

Hoje é preciso levar ao limite as reformas corajosas que empreendemos na proteção dos cidadãos endividados. Refiro-me às medidas legais que impõem aos bancos práticas de responsabilidade social: de alertas de risco, de negociação em caso de incumprimento, de limitações das taxas de juro nos créditos ao consumo ou nos serviços mínimos bancários. E refiro-me à ‘Rede de Apoio ao Consumidor Endividado’.

Em Viseu, sociedade civil e município criaram o gabinete ‘BEIRA AMIGA’, que a integra. O acompanhamento de proximidade das famílias endividadas é um desafio do nosso tempo. Cidadãos e famílias estão muitas vezes desprotegidos pelo seu próprio desconhecimento. Vencer este desafio depende de uma rede de colaborações locais, que precisamos de formar e de apoiar, sem que o Estado Central volte as costas ao problema, como é tantas vezes sua marca. A orientação não é, em si, a salvação, mas é um passo rumo à recuperação.

O abandono nunca foi solução.
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