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André Ventura

A prova que trama Sócrates

Poderão estar na vida privada do ex-primeiro-ministro muitas das provas fundamentais da alegada corrupção.

André Ventura 1 de Fevereiro de 2016 às 00:30
Se, em regra, o processo criminal é indiferente à vida privada dos cidadãos, poderá não ser assim no processo Marquês. A vida privada e a esfera íntima do Engº José Sócrates poderão trazer aos autos da investigação elementos essenciais para demonstrar a alegada corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal de que está indiciado o arguido mais mediático da justiça portuguesa.

O alcance desta prova, nomeadamente as conversas mantidas com a mãe, bem como os estranhos financiamentos que têm vindo a público de Santos Silva a um conjunto diversificado de mulheres, poderá ser um indício fortíssimo na lógica do Ministério Público. Se, como Sócrates referia, dependia em grande medida da ajuda da mãe, por que razão é a mãe intercetada a solicitar-lhe dinheiro? Se Santos Silva não tinha qualquer relação pessoal com estas mulheres do entorno de Sócrates, por que razão era das suas contas que saíam os fluxos financeiros que financiavam uma parte das suas despesas?

O Ministério Público sustentará, com isto, que era Sócrates o verdadeiro detentor do dinheiro e Santos Silva o seu intermediário no processo do respetivo branqueamento. A defesa, por seu lado, vai atacar o voyeurismo dos investigadores e procurar destruir todas as provas que possam advir da esfera íntima dos arguidos.

Será um teste de fogo à justiça portuguesa, com consequências avassaladoras para todos os envolvidos. Os juízes encarregados de julgar Sócrates perguntar-se-ão se, com base em juízos de experiência comum, é razoável acreditar que tudo isto era pura generosidade ou um esquema montado de sofisticada corrupção e branqueamento de dinheiro? Será esta a chave crucial da decisão quanto a estes dois crimes. Mas, em qualquer caso, há uma outra consequência praticamente inevitável que todas estas "provas íntimas" implicarão: o Fisco quererá saber até ao último tostão quem recebeu o quê nesta teia de relações e onde está todo esse dinheiro no IRS dos arguidos… e das testemunhas!
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