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António Sousa Homem

Abril, o mais cruel

Recordo com alguma melancolia as velhas estradas do Minho: estreitas, curvilíneas, de empedrado, com rectas excepcionais.

António Sousa Homem 18 de Abril de 2021 às 00:30
Recordo com alguma melancolia as velhas estradas do Minho: estreitas, curvilíneas, de empedrado, com rectas excepcionais, passando por florestas de pinheiros e servindo de observatório do litoral. Mas, em chegando Abril, que é o mês mais cruel, as mimosas despontavam como uma ameaça de frivolidade nessa paisagem serena, boa para velhos que festejam os primeiros raios de sol que anunciam a perpetuação da espécie. Colorindo as colinas daqui até ao Gerês, atravessando as serras e dançando ao sabor do vento na velha estrada para Viana, as mimosas interrompiam aquela ditadura dos pinhais e dos densos arvoredos que tinham sobrevivido ao Inverno.
Tudo isto acontecia antes da democracia, da indústria automóvel (que exigiu a indústria das auto-estradas) e "da pandemia". Não havia vacina contra a beleza do Alto Minho, coroado com nuvens de vertigem, dias bonançosos e freguesias tranquilas onde o rio Minho vertia para as suas margens de Melgaço ou Monção, separando-nos amigavelmente de Espanha – e produzindo sonetos desnecessários, é certo.

Mal Abril anunciava as despedidas, a meio do mês, o velho Doutor Homem, meu pai, programava viagens pelos caminhos perdidos nas serras, por onde chegávamos aos Arcos de Valdevez e ao Lindoso, ou por onde subíamos e descíamos até conseguir chegar ao velho pontão carcomido pela água da lagoa de S. Pedro de Arcos. Era aí que ficava, bem perto, o refúgio onde se albergara o Tio Alberto, bibliófilo emérito, gastrónomo, jurista, aventureiro e autodidacta. A família seguia até lá no velho Plymouth azul-escuro que lembrava ao patriarca os verdejantes arredores de Oxford, mas o campeão das estradas do Minho dessa época foi, evidentemente, o Tio Alberto, que mantinha o seu Alfa Romeo – um "vero Osso di Seppia", como então dizia a bela sociedade de Milão – como um atrevimento e um desafio ontológico à nossa modéstia congénita. Guiei-o várias vezes e senti-me, na época, um actor de cinema ao lado de uma jovem com quem outrora passeei nos anos 50. Mas isso é outra história que não tem a ver com o bulício das nossas estradas.

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