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António Sousa Homem

Fazer aquilo de que se gosta

A sua satisfação plena acontecia quando descortinava um almanaque inútil.

António Sousa Homem 8 de Novembro de 2020 às 00:30
Na semana passada, creio que a propósito de uma das minhas crónicas, Maria Luísa murmurou qualquer coisa sobre o importante ser "uma pessoa fazer aquilo de que gosta". Fazer "aquilo de que se gosta" é um princípio estranho à maior parte das pessoas da nossa família, que geralmente se ocuparam de coisas que não sabiam que estavam inclinadas a fazer ou que, no princípio da vida adulta, lhes aparecia como uma inevitabilidade. Era uma espécie de comércio, uma transacção: cumprindo com satisfação razoável algumas obrigações, teriam direito a fazer "aquilo de que gostavam", o que incluía passar uma parte do Verão a navegar de barco no rio Minho, diante de Caminha e Cerveira, ou dedicarmo-nos à ‘bricolage’. Felizmente, não conheço ninguém que tivesse preferido a segunda opção, cujos méritos me foram sempre elogiados ao longo da vida.

Durante algum tempo imaginei que o velho Doutor Homem, meu pai, teria gostado de ser – ou de ter sido – meteorologista, tal a admiração que reservava para o boletim do Dr. Anthímio de Azevedo, o seu momento diário de ensimesmamento diante do aparelho de televisão. Não era verdade; nunca, ao longo dos anos, lhe detectei um sinal de protesto ou de desânimo no seu escritório (onde se dedicava às minudências e ciências ocultas relacionadas com o direito bancário, a única coisa útil que, em épocas diferentes, ambos trouxemos de Coimbra). Acontece que, fora daquelas paredes forradas de estantes austeras, onde se albergavam códigos, tratados e volumes encadernados da ‘Revista de Legislação e Jurisprudência’, além de cópias de pinturas campestres (nunca percebi a sua paixão por Constable, Turner, Gainsborough, nem pelos seus arvoredos, céus plácidos e lagos modorrentos), o velho Doutor Homem, meu pai, tinha uma lista de afazeres que o acompanhou pela vida fora: as edições de poetas românticos ingleses, os discos de ópera (tinha a série completa de gravações de Anna Moffo, a sua soprano de eleição), os livros de genealogia minhota e creio que o ‘bridge’. Satisfação nunca lhe faltou; talvez tempo.

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