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António Sousa Homem

Giestas e mimosas para o Acordo Ortográfico

A Tia Benedita não chorou ‘lagrymas’ pelo fim da sua ‘ortographia’.

António Sousa Homem 17 de Maio de 2015 às 00:30

A Dra. Celina, a nossa bibliotecária de Caminha, regressou de uma das suas caminhadas pela Serra d’Arga e, de caminho (uma coisa não tem a ver com a outra), trouxe a informação de que o Acordo Ortográfico era, a partir de agora, "mais ou menos obrigatório".


Há duas posições sobre as mudanças do mundo. Uma, alegra-se com toda a espécie de alterações, garantindo que a felicidade do género humano está garantida desde que as coisas com mais de um século sejam arrumadas no capítulo das velharias sem uso – sendo substituídas com vantagem por outras.

A segunda, contenta-se com a hipótese de as mimosas e as giestas do Alto Minho esperarem pelo mês de Maio para repetirem um acontecimento mais antigo do que a invenção da mistura de cevada, a bebida que Dona Elaine prepara para o pequeno-almoço há várias décadas. Há uma terceira hipótese, a das pessoas que tanto apreciam mudanças como, ao mesmo tempo, morrem de amores pelas encadernações da velha Typographia Viúva Alvarez Ribeiro, onde o meu avô mandava fazer os seus livros de escrita.

 

A Tia Benedita, a matriarca miguelista da família, recusou-se – durante toda a vida – a escrever de acordo com a ortografia da República, instituída em 1911 e destinada a modernizar a Língua Portuguesa. Teixeira de Pascoaes, que não conheceu a Tia Benedita, defendeu a ortografia antiga por quanto tempo pôde, declarando um amor infinito pelos ‘y’, ‘th’, ‘ph’ e ‘rh’; a Tia Benedita, encerrada em Ponte de Lima, não chorou ‘lagrymas’ pelo fim da sua ‘ortographia’ – limitou-se a escrever conforme quis.

Já o velho Doutor Homem, meu pai, sempre que se esquecia, enviava para os tribunais pastas de documentos com a indicação ‘conteem’ em vez de ‘contêm’ e inutilizou vários problemas de palavras cruzadas no ‘O Primeiro de Janeiro’ porque garantia que se escrevia ‘sciência’. Mas, enfim, tudo mudou. A mim, parece-me que mudar a ortografia devia ser uma coisa de séculos, mais complexa do que alterar o trânsito à saída das rotundas de Vila Praia de Âncora.


Quando a Dra. Fernanda me telefonar do jornal a anunciar que a nova ortografia é obrigatória, enviar-lhe-ei um ramo das giestas e da primeira floração das mimosas (a ‘Acacia dealbata’ do hemisfério sul, da longínqua Oceania), explicando que nenhuma das espécies sabe o que são palavras paroxítonas – e que continuam a crescer nas nossas serras, alegrando a vida de um velho em Moledo.
 
Acordo Ortográfico Língua Portuguesa
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