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António Sousa Homem

O bom tempo em Moledo

O meu avô, adminis­trador de quintas no vale do Dou­ro, vivia atormentado com a possibilidade de granizo fora de época.

António Sousa Homem 28 de Março de 2021 às 00:30
No tempo em que viajava no velho comboio que saía de São Bento e terminava o percurso em Barca d’Alva, o meu avô, adminis­trador de quintas no vale do Dou­ro, vivia atormentado com a possibilidade de granizo fora de época. As suas viagens pelo grande vale, prestando contas, aconselhando economias (que era o seu remédio para quase tudo), mostrando-se interessado em questões familiares, nunca simulando nem simpatia exagerada nem uma frieza desconfiada, eram mais do que uma peregrinação por aquela que dizia ser "a mais bela geografia do País" – constituíam uma espécie de recompensa merecida pelas boas contas prestadas, quando já não havia filoxera e os ingleses voltavam a beber vinho do Porto. Havia algum excesso nessa sua paixão pelo Douro; a família achava que ela se devia a um certo défice no seu conhecimento do Alto Minho.
Pensei nos seus tormentos meteorológicos na semana passada, quando ouvi a minha sobrinha Maria Luísa, muito decidida, anunciar – ao fim da manhã – que iria passar a tarde na praia, "para aproveitar a Primavera". Parecia um discurso de Péricles na ‘História das Guerras do Peloponeso’. Daí a pouco voltou, como um general de Esparta, derrotada pelos Elementos, comprovando que o sol de Março é enganador ao simular uma primeira amostra de Primavera mas vergastando os incautos com a sua brisa fria e inóspita.

A Tia Benedita tinha nesta época o seu "momento meteorológico". Ao contrário do meu avô, seu irmão, que temia o granizo a partir de Julho como a pior das desgraças (destruindo a parra e as uvas ao mesmo tempo), a matriarca miguelista da família não tinha ilusões nem sobre a humanidade em geral, nem sobre o bom tempo incipiente em particular. Ela conhecia "o cieiro da Semana Santa", e sofria-o todos os anos em Braga; da abertura do lausperene em Fevereiro, até pelo menos uma semana depois de o Tio Alberto a recolher em casa de uns primos (onde se hospedava por duas noites, porque não perdia as procissões nem a missa solene) para a devolver aos seus domínios, não alimentava ilusões sobre "o sol de Primavera". Isto era de sexta a domingo ao fim da manhã – porque o almoço de Páscoa tinha lugar, quase sempre, na casa da Tia Henriqueta em Vila Praia de Âncora. Ao depositá-la em Ponte de Lima, ao fim da tarde, o Tio Alberto seguia para a serra (ele vivia em São Pedro de Arcos) convicto de que, finalmente, a Primavera podia agora começar depois de celebrada a Ressurreição e de a Tia Benedita estar a salvo e agasalhada em casa, protegida do "cieiro da Semana Santa".

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