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Baptista-Bastos

O candidato que não é

Guterres detesta problemas. Deseja é mel e leite e o exercício de funções pacíficas.

Baptista-Bastos 15 de Abril de 2015 às 00:30

Com a habitual voz flébil, António Guterres anunciou, pela Euronews, num inglês incomparável, que não era candidato a candidato às eleições presidenciais portuguesas. Acabou, sem hesitação, com o miasma do boato que ele próprio alimentara. Está-
-lhe no sangue este tipo de indecisões e evasivas. Acrescentou que gosta muito do trabalho exercido, e ambiciona continuar a carreira internacional que o bafejou: as fofas funções de alto comissário da ONU para os refugiados, cuja natureza meio mundo desconhece, e ao outro meio é indiferente.

Com perdão da palavra, Guterres não tem perfil para Belém. Deu provas suficientes de ser um espírito hesitante, temeroso, com escassa coragem para enfrentar contrariedades, as mais minguadas, e sempre predisposto a escapulir-se, sem pudor nem dignidade, como o fez quando se demitiu do Governo. Conheço o homem há anos, das conspirações no gabinete de Soares Louro, na Cinevoz. Confesso que simpatizava com a cortesia constantemente demonstrada, e com a força vocabular com que defendia padrões e convicções.

Depois foi a fuga ao combate, quando perdeu algumas câmaras em eleições autárquicas. Além de abrir as portas à Direita mais desavergonhada por isenta de princípios, fez-se à vidinha e andou por aí, com o rosto compungido, a fazer ninguém sabe o quê, diz que a favor dos expatriados. A letra do samba "ninguém sabe/ninguém viu" é-lhe amplamente adequada.

Estava um pouco esquecido, até que o PS fez circular a ideia de que ele era o seu candidato às presidenciais. O homem que classificara a pátria portuguesa de "pântano" e os seus tristes habitantes de "indolentes" ressuscitava das trevas e do silêncio.
Numerosos de nós ficámos estarrecidos com a deplorável escolha socialista. Ele, como lhe é habitual, nada dizia e reduzia a inquietação dos outros a um sorriso melífluo. Até que falou e disse, deixando a direcção do PS espavorida, sem candidato imediato, e muitos portugueses mais aliviados. Se, depois de Cavaco, a prenda que nos ofereciam era aquela…

António Guterres detesta problemas. Deseja é mel e leite e o exercício de funções pacíficas, bem remuneradas e sem atritos de maior. Genuflexão e prece para aquietar a consciência, uns discursos ocasionais, e umas fotos cheias de compaixão pelos de lá. Os de lá são aqueles atrás das grades, concentrados no medo e no desespero. Haja Deus! 

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