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Boss AC

Uns comem, outros degustam

Atão porque não posso eu comer ‘confit de canard’ com um Sumol de laranja?

Boss AC 25 de Janeiro de 2015 às 00:30

Quanto mais viajo, mais tenho a certeza de que se come mesmo bem em Portugal. Os franceses até podem ter a fama, mas o proveito é nosso. Concordo que visualmente, uma bifana ou uma sandes de entremeada ainda a escorrer óleo,  compradas numa roulotte em dia de futebol, não sejam visualmente  apelativas, como um prato num desses restaurantes com estrelas Michelin.

Fico sempre com a impressão que a malta depois dum repasto desses, a  caminho de casa e sem ninguém ver, faz uma paragem técnica numa roulotte para matar a fome com uma sandezinha de courato e uma bejeca.

Esses restaurantes têm tantas regras com os talheres e copos que quase temos de tirar um curso de línguas e protocolo, antes de podermos sentar  à mesa para comer uma canjinha. Felizmente tenho a aplicação do tradutor do Google e sempre vou sabendo que "oeufs brouillés" são ovos mexidos.

Será que eles pedem o currículo antes de aceitarem as reservas? Já imagino uma carta: "Lamentamos mas a sua candidatura foi rejeitada. O  facto de não apreciar bebidas alcoólicas, não lhe permitirá desfrutar plenamente da nossa experiência gastronómica, pensada na sua génese para  ser degustada com vinhos específicos."

Acho mal! Atão porque não posso eu comer "confit de canard" com um Sumol de laranja? Quem perde são eles! De qualquer maneira, nem gosto de pato. E de vinho só gosto mesmo das uvas  ainda por fermentar.

Isto leva-me a pensar que a principal diferença entre a mera culinária e a gastronomia gourmet é a linguagem.

Um restaurante que tenha no seu menu algo como filete de novilho, marinado em seiva de azeitona servido com tubérculos alourados e acompanhado de gramíneas e ovo na frigideira pode facilmente cobrar trinta euros. Mas se ao mesmo prato chamar ‘bitoque’ já só se fica pelos sete, oito euros. Ou seja, pagam-se oito euros pelo bife com batata frita  e ovo estrelado e depois mais vinte e dois euros pela tradução.

Já fiz essa experiência. Convidei uns amigos para jantar lá em casa o meu famosíssimo ‘Taggliatelle al dente com molho de fungos silvestres e cubos de frango regados de orégãos’. Toda a gente adorou. Se lhes tivesse convidado para comerem massa semicrua com frango e um  pacote de natas do Lidl misturado com um pacote de sopa de cogumelos em pó, disfarçado com orégãos, será que teria o mesmo impacto? Duvido.

Hoje é domingo. O que me apetecia mesmo era um estufado de milho pilado,  com feijão vermelho, adornado de enchidos e carnes várias acompanhado de legumes cozidos, mandioca e batata-doce, frito em cebolada de azeite. Há quem lhe chame cachupa guisada.

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