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Carlos Anjos

IX Corrida Vidas/Correio da Manhã

Era um dia importante para a tauromaquia lusa.

Carlos Anjos 3 de Junho de 2016 às 18:45

Era um dia importante para a tauromaquia lusa. Na Assembleia da Republica haviam sido derrotados três projetos de Lei, apresentados pelo Bloco de Esquerda, Verdes e PAN, que de uma forma absolutamente cobarde e a propósito de uma eventual defesa dos direitos das crianças, o que queriam era contribuir para o fim das corridas de toiros. Partidos que num passado recente defenderam a legalização das drogas leves a partir dos 16 anos e o direito de voto aos 16 anos, queriam agora exigir que só se pudesse aprender a tourear aos 18 anos.

Esta vitória é uma vitória da identidade nacional de um povo, da sua história e dos seus valores culturais. Era por isso uma corrida esperada e havia grande ambiente nas imediações da praça. A Corrida "Vidas" – Correio da Manhã, foi a terceira da época no Campo Pequeno, e apetece dizer que à terceira foi de vez. Depois de duas corridas com cerca de meia casa, eis que o Campo Pequeno, catedral do toureio a cavalo, enche-se, e enche-se para ver o rejoneador espanhol Pablo Hermoso de Mendonza. Podem criticar, podem dizer que aquilo não é toureio, podem até dizer mal dos touros, mas felizmente ou infelizmente factos são factos e a verdade, é que hoje, cavaleiros, ídolos daqueles que enchem praças, existem dois acima de todos os outros, e Pablo H. Mendonza é um deles. Um artista. Repito, um artista, porque é de arte que falamos. Os touros de Santa Maria não tinham a bravura que têm os de outras ganadarias, não tinham bravura, não criavam "frisson", nem nos faziam sentir o perigo. Mas Pablo Hermoso de Mendonza, pôs tudo aquilo que os toiros não tinham. No primeiro touro da noite, recebeu-o com excelente brega, parando o toiro com o cavalo. Cravou os dois compridos da ordem, ferros normais, mas colocados no sítio. Depois foi buscar o cavalo "Berlim" e montou o seu espetáculo. Bregou como nenhum outro faz, ladeou a duas pistas, encheu a cara do toiro de cavalo, e cravou sempre bem. Não houve ferros descaídos, passados ou traseiros. Tudo feito com muita calma, com enorme serenidade, e acima de tudo com muito temple. Uma lição de equitação e de toureio.

No seu segundo touro, mais do mesmo. Novamente a parar o touro com o cavalo e a cravar dois compridos normais. Troca de montada e vai buscar o "Disparate". E nova lição de toureio, presenteando o público com as famosas "Hermosinas". Lidou como nenhum outro, cravou com classe e depois remata todas as sortes, com desplantes únicos. Não satisfeito foi buscar uma nova montade, o "Donatelli" e o show continuou.

Pablo Hermoso de Mendonza intima os seus companheiros de cartel, que parecem diminuir de tamanho à medida que a lide do espanhol de Navarra evoluiu. Pablo condiciona e de que forma a atuação daqueles que consigo alternam. E o público de Lisboa rendeu-se, aplaudindo-o em delírio, exigindo mais e mais ferros. O Campo Pequeno não queria deixar o navarro sair. Queria mais. Cavalo e Cavaleiro fazem um conjunto perfeito, onde cada um sabe exatamente o que fazer. Cavalos bem apresentados, bem tratados, com sentido de lide, que não fazem um  feio, que não tiram os olhos do touro, e que a cada momento, sabem o que quer o seu dono. Um conjunto perfeito. Tudo parece fácil. Dirão os críticos que com aqueles toiros, fazer aquilo é fácil. Pois é. O problema é que Pablo Hermoso de Mendonza já toureou aqueles touros com todos os outros toureiros e nenhum faz o que ele faz. Ontem os touros eram iguais para todos, mas fazer o que Pablo faz, nenhum outro foi capaz, e por isso que ele é a figura cimeira do toureio a cavalo.

João Moura Jr., teve ontem azar no Campo Pequeno com o sorteio dos touros. Calhou-lhe em sorte o pior lote, mas a verdade é que mesmo assim, tem valor, tem a obrigação e tem cavalos para fazer muito melhor que aquilo que fez. Pareceu intimidado com o sucesso de Pablo. Neste momento, é sem dúvida um dos melhores toureiros portugueses da atualidade, mas ontem não esteve bem. No primeiro, um touro manso que rapidamente se apagou, cravou a ferragem da ordem, não havendo nada a registar dessa atuação. Moura Jr., teve a noção de que as coisas não lhe correram bem e de uma forma digna, recusou dar a volta.

No segundo, o touro voltou a ser manso e a transmitir pouco. Moura tentou impor o seu toureio, mas não o conseguiu. Uma lide normal, marcada por um forte toque numa das montadas, de onde saiu uma lesão na perna que deixou Moura Jr., a coxear. Moura Jr., tem argumentos e valor para fazer muito mais do que o que fez ontem no Campo Pequeno. Em outras ocasiões já se bateu de igual para igual naquela mesma praça com Pablo Hermoso de Mendonza tendo inclusive em algumas situações saído por cima. Não foi o caso de ontem. Pablo ganhou claramente o duelo com Moura Jr.

Por último a francesa Lea Vicens, que confirmava a alternativa no Campo Pequeno, onde toureava pela primeira vez. Duas lides completamente distintas. No primeiro, a lide foi uma autêntica tragédia. Doze ferros cravados, dez curtos e dois compridos, uma brutalidade sem que o Diretor de Corrida dissesse fosse o que fosse. Era ver a rejoneadora a cravar ferros uns a seguir aos outros, sem nexo. O Diretor de Corrida resolveu entrar neste episódio anedótico e deu ordem para a banda tocar ao oitavo ferro curto. Exigia-se ao Diretor de Corrida uma outra postura até em defesa do touro.

No segundo touro, tudo foi diferente. Lea Vicens entrou mais calma, teve sítio, mostrou boas montadas, assim como mostrou saber o que estava a fazer. Uma boa lide, onde toureou com verdade, citou com classe, cravou com elegância e rematou os ferros com classe. Não foi uma lide extraordinária, mas foi uma boa lide.      

O curro de touros era fraco e sem apresentação para uma praça como o Campo Pequeno. Exige-se mais a esta Praça. Mas eram iguais para todos.

Nas pegas, êxito assinalável para os Amadores de Alcochete. A primeira pega, foi consumada pelo cabo Vasco Pinto à primeira tentativa. Vasco despediu-se ontem do Campo Pequeno, onde pegou pela última vez. Vai deixar brevemente a liderança dos forcados de Alcochete, passando o testemunho a Nuno Santana, outro grande forcado. Vasco Pinto um grande forcado, esteve claramente por cima do touro, efetuando uma pega fácil para ele, sendo muito bem ajudado pelo grupo.

Para a segunda pega dos Amadores de Alcochete foi à cara o forcado Fernando Quintela. À primeira tentativa o touro não teve uma investida franca, e o forcado meteu os joelhos à frente, entrou mal no touro e foi sacudido. À segunda tentativa, citou com classe, mandou no touro, toureou-o como deve ser, e fechou-se com classe, alapando-se autenticamente na cara do touro, consumando uma boa pega.

Para a terceira pega deste grupo foi o forcado, João Machacaz. Forcado experiente, fez tudo bem e consumou uma boa pega à primeira tentativa.

A noite não correu tão bem aos Amadores de Coruche. A primeira pega foi também ela da responsabilidade do cabo do grupo Amorim Ribeiro Lopes. Também este forcado vai deixar o grupo, onde vai ser substituído por outro grande forcado, José Tomaz. Fez por isso a sua última pega no Campo Pequeno. Uma pega simples, à primeira tentativa. Amorim Ribeiro Lopes, um forcado de enorme valor e muito experiente, não facilitou, fez tudo bem e consumou a pega.

Para a segunda da pega deste touro, saiu o forcado João Peseiro. Na primeira, saiu da cara do touro, na sequência de um derrote violento. Desta tentativa saiu lesionado o 1.º ajuda, que foi substituído pelo forcado José Tomaz, futuro cabo do grupo. Esta pega foi consumada à terceira tentativa, depois de uma enorme primeira ajuda de José Tomaz, que deveria ter sido chamado à arena. Por vezes, as grandes pegas não são só da responsabilidade do forcado da cara e ontem José Tomaz demonstrou isso mesmo.

Na terceira dos rapazes de Coruche, foi chamado à cara do touro o forcado António Tomáz. Era um touro difícil para os forcados, já que derrotava muito alto. O forcado teve muitas dificuldades em fechar-se, já que o touro era violento a entrar e no primeiro derrote, derrotando sempre com enorme violência. Pega consumada à terceira tentativa, a sesgo e com ajudas carregadas. O forcado, com enorme dignidade recusou dar a volta.

Uma excelente corrida, montada para um determinado espetáculo, com os touros escolhidos exatamente para esse tipo de espetáculo. Mas volto a referir; os touros eram iguais para todos, só que uns destacam-se mais do que os outros. E ontem, do Campo Pequeno, ficará para a história Pablo Hermoso de Mendonza e dois dos seus Cavalos; "Berlim" e "Disparate".

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