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Edgardo Pacheco

Os bifes não são feitos em fábricas

Esperar que um bife grelhado só com sal tenha sempre o mesmo sabor é mau sinal.

Edgardo Pacheco 22 de Setembro de 2017 às 00:30
Os portugueses mostram orgulho no consumo de produtos naturais e frescos, mas nem sempre percebem o conceito. Ou seja, exigem de um produto natural aquilo que só um produto industrial dá: consistência permanente de sabores e texturas.

Na semana passada, uma senhora indignava-se com um vendedor de produtos biológicos pelo facto do tomate comprado no sábado anterior não ser igual ao que havia levado 15 dias antes. O vendedor tentou explicar que, primeiro, não produzia tomate padronizado e, segundo, em qualquer país europeu, um tomate de setembro não é igual a um tomate de agosto – que é quando o fruto atinge a plenitude de sabor.

Como a senhora – muito à portuguesa – queria partilhar as dores e sentir-se solidária com quem estava por perto e a coisa calhou-me a mim, lá sugeri delicadamente que, sendo ela inteligente, não consideraria que uma vindima se fizesse em dezembro ou que as castanhas saíssem dos ouriços em julho. Tempo perdido.

E quem fala de tomate fala de carne ou peixe. Quando os portugueses se atiram a um bife grelhado, esperam que o mesmo tenha sempre o mesmo sabor e macieza. O dono do restaurante bem pode argumentar que não há duas vacas iguais (com a mesma origem, genética, alimentação, idade, tratamento no matadouro ou maturação), que isso pouco importa.

Para pratos de tacho ou de forno (que exigem tempero e mão da cozinheira) podemos exigir consistência, mas quando estamos perante produtos naturais pouco ou nada manipulados a coisa é diferente. Ninguém de bom gosto quer que o melhor vinho de determinado produtor seja uma fotocópia das colheitas anteriores, pois não? De maneira que não há bifes, tomate ou sardinhas sempre iguais. E ainda bem.
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