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Eduardo Cintra Torres

E porque não queimar-nos vivos?

Uma nova matilha virtual virou-se agora para um livro que não leu: 'Alentejo Prometido'.

Eduardo Cintra Torres 6 de Março de 2016 às 01:45
Quando escrevi sobre a ‘Queima do Gato’ numa aldeia transmontana e seu vídeo, uma matilha virtual nas redes sociais desejou-me a morte, com sugestões diversas: pendurado numa árvore, chamuscado como o gato, mas até à morte, lançado ao mar com pedra ao pescoço. Eu não opinava. Nem condenava, nem aprovava a prática. Procurava esclarecer o caso na contradição contemporânea entre uma tradição local e a difusão global das imagens. A matilha virtual de centenas ou milhares, acirrada por uma ‘telepersonalidade’, Nuno Markl, não leu o artigo e, quando leu, não leu o que queria: a humilhação ou condenação do povo duma aldeia isolada com uma tradição fora do tempo na sua única festa anual.

Nova matilha virtual virou-se agora para um livro que não leu: ‘Alentejo Prometido’, de Henrique Raposo. Alguém fez um vídeo com a queima simbólica do livro; os insultos e ameaças virtuais animaram as redes sociais. Os ‘Charliezinhos’ lá bateram no peito o seu amor à liberdade com a habitual conjunção adversativa: "mas ele estava a pedi-las".

Ficaram até irritados com os que defenderam a liberdade de expressão sem adversativa. O crime de Raposo? Escrever sobre o Alentejo. Ele "não pode", não é de "esquerda", portanto, "não entende". Deveria ter escrito ou o bilhete postal ou a declaração de amor de "esquerda" ou, perfeição máxima, o bilhete postal de "esquerda". A matilha gosta de lugares-comuns, dos seus. Tudo o que os perturba, queime-se, autor incluído.

‘Alentejo Prometido’ é um livro desassombrado, bem escrito, com raríssima revelação por um intelectual das suas origens pobres sem outro heroísmo que o da pobreza. Parte da história da sua família, até à quarta geração, para resolver um problema que tinha consigo mesmo, o Alentejo.

Fez literatura de viagens, regressando ao Alentejo litoral dos seus bisavós, avós, pais, tios, amigos. Perguntou, informou-se, usou estatísticas e estudos. Interpretando o caso familiar, acrescentou conhecimento e permitiu o debate. Criticou, como Aquilino os beirões, Camilo os minhotos e Eça os lisboetas. Pode discordar-se de conclusões do livro, mas considerá-lo um estudo válido e um testemunho novo sobre realidades escondidas. É um livro do desassossego, e desassossego é o que se pretende com a busca intelectual, a investigação científica e as grandes reportagens como esta. Desvendar lugares-comuns é uma obrigação de quem as faz. Mas as redes sociais, maravilha de hoje, também "deram voz aos imbecis", disse Umberto Eco.

Silêncio ou condenação: é conforme
A administração da RTP intervém ilegalmente, como quer e lhe apetece, em negociações e escolha de conteúdos, mas a ERC, a Comissão da Carteira e o Sindicato dos Jornalistas e o Parlamento ficam em silêncio.

Há jornalistas e canais a fazer publicidade nos noticiários e programas, mas a ERC, a Comissão da Carteira e o Sindicato dos Jornalistas e o Parlamento ficam em silêncio. Há um director de um jornal nomeado por um político, oferecendo-se para o servir obedientemente como general prussiano, mas a ERC, a Comissão da Carteira e o Sindicato dos Jornalistas e o Parlamento ficam em silêncio.

A TVI parece a agência de marketing da EDP, mas a ERC, a Comissão da Carteira e o Sindicato dos Jornalistas e o Parlamento ficam em silêncio. O Correio da Manhã faz algum título correcto que colide com o ‘bom gosto’ da burguesia lisboeta? Escândalo! Queixam-se, esperneiam, levantam autos, reúnem-se, incendeiam as redes sociais. Dois pesos, duas medidas?

Audiências: TVI líder com menos canais
Os 14 canais dos três maiores operadores de TV somam 62,5% da audiência. A TVI, com três canais, tem quase um quarto da audiência (24,7%). A SIC, com seis, tem 21,3%. A RTP, com cinco, tem 16,5%. Por golpe na secretaria, a RTP quer pôr mais dois canais na TDT. Mas isso não garante espectadores. O canal do Parlamento tem 0,1% da audiência.
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