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Fernando Calado Rodrigues

Bispo dos sem terra

Nem as ameaças de morte demoveram Pedro Casaldáliga de continuar a lutar pela justiça.

Fernando Calado Rodrigues 10 de Junho de 2016 às 00:30
Pedro Casaldáliga é um daqueles homens admirados por muitos e odiados por outros tantos. Este catalão, hoje com 88 anos, foi enviado para o Brasil, para a floresta amazónica, fundar uma missão claretiana em 1968. Acabou por ser nomeado por Paulo VI bispo de São Félix do Araguaia, em Mato Grosso.

Defensor de uma "democracia participativa", submeteu a escolha do Papa a uma assembleia local constituída por religiosos e leigos. E só após a anuência desta aceitou a nomeação.

Na sua ordenação episcopal, a 23 de outubro de 1971, em vez da mitra própria dos bispos usou um chapéu de palha dos agricultores. Para báculo escolheu um bastão de madeira, típico dos indígenas tapirapé do Mato Grosso. Preferiu um anel usado pelos escravos, feito de uma semente de tucum, uma palmeira da Amazónia, a um de ouro ou prata. E, tal como o atual Papa, não habitou no palácio episcopal. Defensor dos sem terra e dos mais pobres, depressa arranjou inimizades entre os latifundiários e junto da ditadura militar.

Recebeu inúmeras ameaças de morte, mas nada o demoveu de continuar a defender os oprimidos. Fê-lo também através de inúmeros poemas que foi publicando ao longo dos anos. Pelas causas em que se empenhou, foi logo classificado como de esquerda e como revolucionário.

Esta semana foi apresentada em Madrid uma obra que reúne uma seleção dos seus textos, nas suas três línguas: português, castelhano e catalão. Nessa circunstância, disse-se que ele não era "nem de direita nem de esquerda", mas "um homem intrépido", para quem "se há algo irrenegociável é o Evangelho". Há dias, em Lisboa, o P. António Spadaro, questionado sobre se o Papa Francisco era revolucionário, respondeu: "Revolucionário é o Evangelho." Homens como Casaldáliga ou o Papa Francisco não são revolucionários. São fiéis aos valores do Evangelho de Jesus Cristo. E não se vergam a nada, nem a ninguém.
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