Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Fernando Calado Rodrigues

O ateu e o bispo

Marco Panella e Vicenzo Paglia, uma estranha amizade entre um libertino e um bispo.

Fernando Calado Rodrigues 27 de Maio de 2016 às 01:45
A amizade pode surgir entre pessoas que militam em campos diametralmente opostos, com opções nada compatíveis. As quais, todavia, não os impedem de desenvolver uma admiração e uma estima recíprocas.

A morte do fundador do líder do Partido Radical italiano de extrema-esquerda, Marco Panella, veio tornar mais conhecida uma dessas amizades improváveis. Um homem que se definia a si mesmo como "radical, socialista, liberal, federalista europeu, anticlerical, antiproibicionista, antimilitarista, não violento e gandhiano" era amigo do arcebispo Vicenzo Paglia, o atual Presidente do Pontifício Conselho para a Família. A quem até admitia que rezasse por ele.

Uma estranha amizade entre um libertino que defendia o divórcio, a eutanásia ou a despenalização do aborto e um clérigo que se opõe frontalmente a tudo isso. Entre um ateu declarado e um crente confesso, mas que convergiam na defesa dos direitos humanos.

E, cada um a seu modo, declaravam ter um espírito religioso. D. Vicenzo Paglia reconheceu, numa entrevista ao ‘Corriere della Sera’, que, apesar das divergências em algumas opções políticas, até o admirava por "gastar a vida em função dos ideais em que acreditava". Algo que até levou o Papa Francisco a "apreciá-lo". Um sentimento que era recíproco.

"Escrevo-te do meu quarto no último andar, perto do céu, para te dizer que, na realidade, eu estive contigo em Lesbos, quando abraçavas a carne torturada daquelas mulheres, daquelas crianças e daqueles homens que ninguém quer acolher na Europa", dizia Panella, numa carta escrita na cama do hospital e entregue pelo amigo arcebispo ao Papa.

Terminava essa carta com a expressão carinhosa italiana: "Ti voglio bene davvero tuo Marco" (Quero-te bem, de verdade, o teu Marco).

Estas palavras, além do afeto pelo Papa, demonstram que, para lá de tudo o que os separava, os unia a predileção pelos mais desprezados.
Marco Panella Vicenzo Paglia papa Francisco Lesbos Europa religião
Ver comentários