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Fernando Medina

Um país a duas velocidades

As escolas estão a formar alunos num contexto em que a base de partida é mais frágil do que na maioria da Europa.

Fernando Medina 2 de Março de 2016 às 00:30
Odéfice mais importante que o país enfrenta é, sem dúvida, o défice de qualificações da população. Esta semana, um estudo encomendado pelo Ministério da Educação revela dados importantes. Apenas duas em cada dez crianças cujos pais têm o 4º ano de escolaridade conseguem um percurso limpo de "chumbos". Já quando os pais têm formação superior, 7 em cada dez passam sem uma negativa nos exames ou no fim do ano. É conhecido que insucesso e abandono precoce são realidades que andam de mãos dadas.

Os países do norte da Europa tinham o seu processo de alfabetização concluído, no fundamental, na transição para o século XX. Mas em 1971 um em cada quatro portugueses não sabia ler nem escrever. Recuperámos bastante em 40 anos de democracia. Hoje não falamos de percentagem de analfabetismo e a qualificação das gerações mais novas tem progredido. Mas, num contexto em que as desigualdades socioeconómicas condicionam de forma tão acentuada os resultados das gerações mais novas, o défice de qualificações dos adultos continua a ser um obstáculo central ao sucesso individual e coletivo.

O que este estudo nos indica é que as escolas portuguesas estão a formar alunos num contexto em que a base de partida é mais frágil do que na maioria da Europa. São famílias inteiras que nunca tiveram hábitos de estudo, leitura ou trabalho intelectual individual. Grande parte dos pais, mesmo sacrificando-se para dar a melhor educação possível aos seus filhos, não os consegue ajudar nos trabalhos escolares. Para milhares de famílias, esta é a primeira ou segunda geração que tem alguma escolarização. E isso conta. Aqui chegados podemos cruzar os braços e esperar que o assunto se revolva por si, com o custo económico e social de deixar para trás gerações inteiras.

Ou, pelo contrário, podemos ter políticas que respondam a este problema, nomeadamente ao nível da formação de adultos e do apoio social em contexto escolar. A formação das gerações que, no seu tempo, não tiveram uma oportunidade de estudar não é apenas um dever moral que temos como sociedade, nem uma mera ferramenta para combater o desemprego de longa duração e aumentar a competitividade da nossa economia – o que já não seria pouco.
Apostar na educação de adultos é também uma forma de melhorarmos as hipóteses de sucesso escolar dos mais jovens. Pais escolarizados melhoram os resultados dos seus filhos.

A instabilidade europeia
A indecisão política saída das eleições irlandesas prova como a austeridade imposta na zona euro está tornar mais difíceis as soluções de governabilidade por toda a Europa. Portugal entrou para a União Europeia há precisamente 30 anos. A Europa era então um projeto de coesão e desenvolvimento que favorecia a consolidação das democracias. Beneficiámos muito disso e por isso percebemos bem a diferença com o que vemos hoje.

30 anos depois, vemos uma Europa demasiado ocupada a castigar infrações orçamentais, obcecada com uma receita falhada, sem cuidar das verdadeiras causas dos défices e das dívidas. Ao mesmo tempo, vemos a mesma Europa extremamente tolerante perante ataques a regras democráticas fundamentais, na Hungria ou na Polónia; sem uma resposta à altura da crise dos refugiados; e a ceder em princípios como a igualdade de direitos entre cidadãos da UE, no caso do referendo britânico.

30 anos depois, é com tristeza que vemos um projeto de democracias consolidadas a transformar-se num fator de "desconsolidação".

Cidade aberta
Lisboa é hoje a grande cidade universitária portuguesa e está a caminho de ser uma grande cidade universitária europeia. No arranque do novo semestre, a Câmara deu as boas vindas a 500 estudantes estrangeiros, na certeza de que esta relação com Lisboa se vai prolongar vida fora. A capital do país é hoje uma cidade que se renova e que se abre ao mundo, multicultural, tolerante e solidária. Estes jovens são disso exemplo.
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