Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco José Viegas

Um atentado ao coração da tolerância e da liberdade

Foi um dos atentados mais imbecis, uma espécie de combustível lançado para alimentar os extremismos.

Francisco José Viegas 8 de Janeiro de 2015 às 00:30

Ontem, ao aterrar em Paris, havia duas coisas que tinha prometido fazer: comprar o livro de Michel Houellebecq ‘Soumission’ (Flammarion), que era posto à venda logo de manhã, e tomar um café no Boulevard Tour Maubourg para folhear a edição do ‘Charlie Hebdo’ que apresentava Houellebecq como figura do dia – e da semana. Só tomei o café. Não porque fosse impossível cumprir a promessa, mas porque tinha perdido sentido. Tanto Cabu como Wolinski (77 e 80 anos respetivamente), duas figuras tão importantes para a minha memória de França, tinham sido assassinados há pouco menos de uma hora num dos atentados mais imbecis, ameaçadores e (ao mesmo tempo) esperados, se tivermos em conta as ameaças dirigidas contra o ‘Charlie Hebdo’ e as medidas de segurança que envolviam o jornal desde o célebre caso das ‘caricaturas de Maomé’ e o posterior ataque à redação.

Nenhum ataque foi tão imbecil. Porque foi filmado, porque aqueles urros de "Allah Akbar" e "Vingámos o profeta" são a expressão de um atentado cruel contra a liberdade de expressão e contra a democracia liberal, aquela que conhecemos.

Nenhum ataque foi tão ameaçador porque não se limitou a uma execução fria, organizada e reivindicada; constituiu também o cumprimento de uma promessa de morte contra todos os nossos valores.

Nenhum ataque foi tão esperado, porque estávamos – todos – desarmados diante da ameaça (a mesma que se abateu sobre Salman Rushdie) que ninguém acreditava que fosse executada; mas era esperada, sim. Não apenas por ‘Charlie Hebdo’, não apenas por Michel Houellebecq, mas também por Kamel Daoud, autor do livro ‘Meursault, Contre-Enquête’, finalista do prémio Goncourt deste ano, e sobre quem acaba de ser decretada uma ‘fatwa’ (por um imã argelino de segunda ordem) condenando-o à morte por blasfémia. Tudo está ligado.

Os ilustradores Cabu e Wolinski, assassinados ontem de manhã com mais oito jornalistas de ‘Charlie Hebdo’, talvez fossem inimigos verdadeiros do Profeta, sim – eles eram fonte inesgotável de riso, uma obrigação de tolerância e de liberdade. Este ano, o vice-primeiro-ministro turco (de um governo islamo-conservador) tinha advertido as mulheres do seu país de que não era bom serem vistas a rir em público, porque o Profeta não apreciava o gesto.

Ontem, nos rostos dos parisienses, não havia riso, certamente. Em seu lugar, a palidez de uma ameaça que se cumpriu contra a nossa boa fé.

A mesma boa fé que encheu as ruas da Alemanha protestando contra o movimento anti-Islão.

A mesma boa fé que em Inglaterra manda que as mesquitas radicais, como a de Finsbury Park, continuem de portas abertas vociferando contra o Ocidente, a liberdade e a democracia.

A mesma boa fé que manda sociólogos de toda a espécie ‘explicar-nos’ como temos de ser pacientes e "compreender" os excessos da barbárie. Por isso foi um dos atentados mais imbecis, uma espécie de combustível lançado para alimentar os extremismos, os pavores, as labaredas de intolerância.

Talvez a resposta mais indicada seja, de facto, a da tolerância. Mas no combate dos extremismos europeus (de que um dos rostos inevitáveis é Marine Le Pen), nunca se sabe a quem beneficia o número dos mortos inocentes.

Ver comentários