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Francisco Moita Flores

'Totò u Curtu'

Reinado deste mafioso coincide com a descoberta das ligações entre a Máfia e o poder.

Francisco Moita Flores 19 de Novembro de 2017 às 00:31
Quando Tommaso Buscetta aceitou colaborar com a polícia italiana e denunciou o padrinho dos padrinhos da Máfia siciliana, Totó Riina, este, ao saber quem o traíra, mandou matar-lhe toda a família. Ao todo foram assassinadas onze pessoas. Riina é o mafioso que declara guerra ao Estado e, sob as suas ordens, nos inícios da década de noventa, são mortos vários políticos, polícias e magistrados, sendo os mais célebres, o juiz Falcone e o procurador Paolo Borsellino, ambos responsáveis pela mais dura e complexa investigação contra aquela histórica associação criminosa.

Na verdade, são imputados pela Justiça italiana a 'Totò u Curtu', assim conhecido devido à baixa estatura, cerca de cinquenta homicídios e ter ordenado a execução de mais de uma centena de inimigos, incluindo mafiosos e funcionários públicos, de polícias a políticos passando por magistrados.

Morreu esta semana. Cumpria a primeira das vinte e seis penas perpétuas a que foi condenado.
Por outro lado, o reinado deste mafioso, que teve o seu apogeu nas décadas de 80 e inícios de 90, coincide com a descoberta clara das ligações entre a Máfia e o Poder. O sistema político italiano desmoronou-se. A Democracia Cristã apagou-se, o Partido Socialista quase desapareceu, o Partido Comunista desfez-se. Tornara-se claro que o Estado fora tomado por dentro pelo poder da Máfia.

Presidentes da República e do governo, ministros e autarcas estavam incluídos na mesma teia de interesses que Riina comandava. Não matavam mas ajudavam a delapidar a riqueza comum a partir do serviço público. É a primeira e brutal evidência, no pós-guerra, de como um Estado democrático pode transformar-se num Estado-bandido pela corrupção e clientelismo. Infelizmente, este período não serviu de lição.

Que na morte de 'Totò u Curtu' se recorde aquele período negro. Para que o Estado de direito e democrático não seja apenas uma fórmula de conveniência.
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