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José Diogo Quintela

A paridade da inocência

A parte branca, que não é oprimida, contamina tudo com a sua arrogância.

José Diogo Quintela 7 de Janeiro de 2017 às 01:45
Sou cada vez mais misantropo, o que me leva a preferir estar sozinho em casa em vez de conviver com pessoas. Dizem que é a minha melhor qualidade.

Geralmente, como razão para não aceitar convites, invento uma morte na família. É um exercício criativo mais difícil do que se supõe. Não posso matar um familiar muito próximo, que levaria as pessoas a aparecerem no velório para me abraçar; nem um familiar tão afastado que seja implausível recusar um compromisso por sua causa. Mais: obriga a manter um excel actualizado com todos os pseudofalecidos, para não repetir falsas mortes. Uma trabalheira.

Mas agora, graças a Rui Tavares, tenho nova desculpa. No seu artigo do ‘Público’ "Eu vi 2017, e vai ser só homens", RT faz uma pungente chamada de atenção para a falta de opiniões de mulheres na imprensa. Concordo em absoluto. E desejo militar nesta causa. Por isso, da próxima vez que me convidarem, digo: ‘Grato pela solicitação, mas convide antes uma senhora’. Faço figura de campeão da paridade sem sair do remanso do lar.

Irei mais longe (figurativamente, claro). Possuidor de um espaço de opinião no jornal mais lido do País, serei coerente com as minhas convicções e passarei a disponibilizá-lo a membros de minorias oprimidas. Eis o primeiro: uma mulher. ‘Olá, sou uma mulher. 2017 vai ser muito instável. Mas podia ser pior, se a corrupta da Clinton fosse Presidente’.

Bom, sou eu novamente. Peço desculpa. Não estava à espera que esta mulher desse a sua opinião pessoal, em vez de veicular a opinião canónica do seu grupo específico. O problema desta convidada é pertencer apenas a uma minoria. A parte branca, que não é oprimida, contamina tudo com a sua arrogância. Cedo então o lugar a uma lésbica muçulmana. A sua condição de triplamente marginalizada dar-lhe-á opiniões mais acertadas:

‘Bom dia, sou uma lésbica muçulmana. 2017 será um bom ano se Le Pen ganhar e impedir a entrada de radicais islâmicos que desejam matar lésbicas’. Mau! Assim não. Terei de escrutinar melhor as vozes minoritárias que deixo falar. Não precisamos de mais pessoas com pontos de vista próprios, precisamos de representantes da ortodoxia identitária.

A falta de paridade é um problema nosso antigo. Agora que se faz o balanço da vida de Mário Soares, para o caso de falecer (ou, para os leitores do ‘Público’, voltar a falecer), é a altura ideal para lembrar o momento mais discriminatório da história recente de Portugal.

Há 41 anos, no auge do PREC, o futuro do país decidiu-se numa conversa. Só que não foi um saudável diálogo aberto com representantes de minorias, como mulheres, ateus, africanos e LGBT. Foi um frente-a-frente entre dois privilegiados do heteropatriarcado, dois brancos de meia idade a praticar mansplaining. Espero que Mário Soares ainda vá a tempo de se arrepender desse debate com Cunhal.

A vida é o que é ou é zombie?
A propósito da CGD, Mário Centeno disse "a vida é o que é". Mas Centeno uma vez também disse que aumentos do salário mínimo são negativos e, esta semana, aumentou o salário mínimo.

O que quer dizer que, por ora, a vida é o que é, mas daqui a nada a vida pode passar a ser o que não é. Ou a não ser o que é. Em qualquer dos casos, a morte. Em abstracto parece complicado, num exemplo prático percebe-se melhor: se os juros da dívida continuam a subir e Portugal for outra vez resgatado, o próprio Mário Centeno, em breve, deixará de ser o que é.

O mesentério da estrada de Sintra
Parece que foi descoberto um novo órgão no corpo humano: o mesentério. Aparentemente, faz a ligação entre o intestino e o abdómen, mas ainda não se conhece qual a função que tem no organismo.

No fundo, é o equivalente anatómico a um grupo de trabalho de um qualquer departamento na função pública portuguesa: não se sabe bem para que é que serve, mas do pé para a mão cria logo uma série de cargos importantes. Neste caso específico, os mesenterologistas. Eu aposto que é o órgão responsável pela intolerância ao glúten.

Pobre menino José Maria Ricciardi
Ricardo Salgado nunca deixou José Maria Ricciardi (JMR) ter protagonismo. Se havia genialidade bancária na família, era a de Salgado; se há talento para a trafulhice, também é o de Salgado. É natural que, como o primo anda mais recatado, Ricciardi aproveite para sair da sua sombra.

Em entrevista à SIC, JMR diz que o Novo Banco deve ser nacionalizado. É curioso. Não a resposta, mas a pergunta. Questionar JMR sobre o futuro a dar ao ex-BES é como se, por exemplo, os Aliados tivessem perguntado a Goering qual a melhor forma de salvar os sobreviventes dos campos de concentração.

Ricciardi não quer o banco vendido a investidores-abutres. Pode ter razão. Se há alguém capaz de usar competentemente a metáfora financeiro-ornitológica é um membro de uma família de banqueiros-pêgas rabudas.
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