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José Diogo Quintela

A quota que o pôs

Queriam os turistas fora dos seus prédios, agora querem morar em prédios de turistas.

José Diogo Quintela 13 de Agosto de 2016 às 01:45
O leitor lembra-se de antigamente, quando era horrível estar no mesmo edifício com bárbaros que vinham a Portugal gastar dinheiro? Eu lembro-me. Foi há duas semanas. De repente, mudou. Neste momento já há desejo de confraternizar com estrangeiros. Antes, queriam os turistas fora dos seus prédios, agora querem morar em prédios de turistas. Pelo menos, a julgar por esta ideia do Governo, de obrigar quem aluga casas a turistas a disponibilizar uma quota para arrendamento habitacional.

Mais uma vez, trata-se do Estado a dizer às pessoas o que devem fazer com os seus pertences. O que é de louvar. A experiência diz que os portugueses não são bons na gestão dos seus bens. Basta ver como entregam à República metade do que possuem, sem sequer os proverbiais tugido ou (mais apropriado, já que se estão a comportar como gado) mugido.

Mas é impossível negar que estamos perante uma estupenda ideia para a promoção do turismo. Obriga o estrangeiro que visita o nosso país a conviver com duas realidades típicas do nosso país: o estatismo abusador e o vizinho português. Dá mais autenticidade à viagem.

Aliás, para fazer a coisa como deve ser, o Estado devia estabelecer critérios de selecção, para melhor destinar os arrendatários que vão ocupar as quotas, de modo a enriquecer a experiência do turista. Há que coligir uma lista, seccionada por tipos de vizinho.

Possíveis categorias: i) o vizinho que lava o carro à porta de casa; ii) o vizinho que frita peixe todos os dias; iii) o vizinho que quer convencer a assinar uma petição para proibir o vizinho que frita peixe todos os dias de fritar peixe todos os dias; iv) o vizinho que bate na mulher; v) o vizinho que finge que não ouve o vizinho que bate na mulher a bater na mulher; vi) o vizinho que ninguém vê há dois anos e cuja casa tem um cheiro estranho; vii) o vizinho que leva muito a sério a reciclagem e chama a atenção se alguém puser plásticos em dia de cartão. Entre outras sub-espécies, ao critério do legislador.

Depois, para tornar a experiência ainda mais genuína, o turista deve ser obrigado a assistir a uma reunião de condomínio, incluindo leitura e aprovação da acta da reunião anterior. Talvez o Air BnB arranje um sistema de pontuações que premeie os condóminos mais aborrecidos, logo, mais interessantes do ponto de vista turístico.

Agora, a ideia do Governo peca por defeito. É pouco ambiciosa. Só afecta quem arrenda várias casas. Quem tem apenas uma casa devia ter de destinar uma divisão para albergar um arrendatário. E, se na casa de banho houver mais de duas escovas de dentes, uma tem de ser para ele. As receitas do 28 e dos museus é que se vão ressentir. Qualquer turista vai preferir passar os dias todos da viagem a observar o peculiar comportamento de um inquilino de uma casa com renda congelada e dirigida pelo Estado.

Isto ainda é pelo Éder?
Em Cannes proibiram o uso de burkini, o fato de banho que cobre o corpo todo, menos a cara. Isto é um ataque a Portugal, disfarçado de ataque aos muçulmanos.

Ao excluir ‘roupa de banho que demonstre de forma ostensiva uma filiação religiosa’, estão, na prática, a impedir as famílias de betos portugueses de irem a Cannes. Por causa dos cordões cheios de crucifixos com que carregam as suas crianças.

Apesar de, mais do que devoção, os cordões servirem para afugentar gaivotas, que ficam encandeadas com o brilho e vão para praias de povo, que só usam pechisbeque.

Sou capaz de ter achado serventia para os burkinis
Além disso, ‘O acesso à praia será banido a todos que não tiverem roupa de banho adequada que respeite os bons costumes’. Ora, sucede que eu faço praia no Oeste. Aqui, ninguém usa roupa de banho que respeite os bons costumes. A não ser que ‘costume’ aqui seja o termo inglês para ‘disfarce de Carnaval’. É só roupa que não serve. Quer no sentido moral, quer no sentido físico: muito apertada, vários tamanhos abaixo. Daí solicitar a Cannes que me envie todos os burkinis apreendidos, para vestir os veraneantes de cá.

Declaração de falta de interesse
Face a acontecimentos recentes, sinto-me obrigado a informar que hoje vão levar-me ao futebol. Um amigo convidou-me para Alvalade e, embora ele diga que não espera nada em troca, vou oferecer-lhe uma mini e uma bifana, nas roulottes.

O que é que isto interessa ao leitor? Nada, obviamente. Eu não sou Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, nem o meu amigo é a Galp. Mas houve uma data de gente que veio dizer ‘Ah, eu também já fui à bola convidado por uma empresa’, como se fosse comparável.

Nas imorredoiras palavras de António Costa, é comparar a obra-prima do mestre com a prima do mestre-de-obras. Já agora, com o que se tem passado, é melhor ir ver se o Estado adjudicou alguma coisa a um mestre-de-obras que seja primo de alguém do Governo. Se tiver, é devolver o dinheiro e fica tudo bem.
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