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José Diogo Quintela

“Adopte um eleitor americano”

Os americanos lá acabaram por eleger um membro de uma minoria: o primeiro demónio.

José Diogo Quintela 12 de Novembro de 2016 às 00:30
Incrível! Mesmo depois da cobertura que a comunicação social fez das eleições americanas, o leitor está, neste preciso momento, a ler um jornal. Obrigado pelo voto de confiança.

Temia-se que o discurso de ódio e de medo pudesse influenciar os eleitores. Mas os eleitores não se deixaram influenciar pelo discurso de ódio e de medo dos media contra Trump. Às tantas, parecia que havia um pacto para denegrir Donald Trump. Um Pacto Donald. Não funcionou. Quando muito, funcionou ao contrário. Pressionados pelos jornalistas, os americanos lá acabaram por eleger um membro de uma minoria. Só que não foi a primeira mulher. A crer no que foi escrito, foi o primeiro demónio. Uma espécie de Poltergeist, que sai da TV para nos assombrar.
Depois de tanto sermão sobre quebrar o tecto de vidro, os americanos elegeram aquela que é, muito provavelmente, a minoria mais perseguida ao longo da história. Até na Bíblia, os únicos que o próprio Jesus Cristo despreza são os demónios. Aliás, está sempre a dizer- -lhes: "Xô! Fora daqui, pá!" Felizmente para quem não gosta de Trump, isto acaba já na tomada de posse. Assim que o mafarrico pousar a mão na Bíblia, entra em combustão espontânea.
Entretanto, os jornalistas e comentadores (agora transformados em exorcistas), continuam a tentar perceber como é que Trump ganhou. Numa primeira análise, concluiu-se que existem nos EUA 60 milhões de mentecaptos com cartão de eleitor, que, por culpa de um sistema eleitoral arcaico e montado pelos mentecaptos que fundaram o país, conseguiram sobrepor-se aos 61 milhões de génios que votaram em Clinton.

Julgo que a única forma de impedir que isto volte a acontecer é criar-se um programa de ajuda internacional chamado "Adopte um eleitor americano", com um hino alegre, cantado por celebridades, chamado "Vamos ensinar a América a votar". Já estou a ouvir o Caetano Veloso a trinar: "Falar com eles é desagradável / Mas faça um esforço, adopte um deplorável".

A campanha é igual àquelas em que se apadrinha uma criança africana pobre, a quem se mandam uns postais no Natal. Mas o bem que se faz ao mundo é ainda maior, porque a criança africana pobre vai crescer e ser um adulto africano pobre, mas com menos correio, enquanto um eleitor americano fará diferença.

Cada europeu esclarecido escreve uma carta a um labrego americano a explicar-lhe como é que se vota correctamente. Pode ser por mail – há rústicos que sabem usar a internet – mas sempre com o cuidado de evitar palavras com mais de 2 sílabas. Há que evangelizar os broncos, revelar-lhes a luz e, já agora, convencê-los a esterilizarem-se voluntariamente, para não gerarem mini-broncos que perpetuem as escolhas eleitorais erradas dos seus pais. Que, como toda a gente sabe, nessas zonas da América às vezes também são seus irmãos.

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Elect her by the pussy?
Parte da América é sexista. É a parte que condescendeu, escolhendo o adversário mais fácil, só para Clinton ganhar. Foi paternalista como eu sou com os meus enteados, quando uso a mão esquerda a jogar ténis, para facilitar. É a parte que acha que devia ter dado cinco estados de avanço.

Mas há outra parte da América que considera as mulheres iguais aos homens. É a parte que tratou uma mulher corrupta com a mesma desconfiança com que trataria um homem corrupto. É a parte que acha tão estúpido dizer "grab her by the pussy" como dizer "elect her by the pussy".

Motins democráticos & Vandalismo progressivo
Trump foi eleito há 3 dias e já começaram os graves ataques à democracia. Estranhamente, as pessoas que temiam que Trump não aceitasse os resultados da democracia reuniram-se para protestar violentamente e gritar que não aceitam os resultados da democracia. Já se sabia que Trump desperta os piores instintos das pessoas. Só não se sabia que eram os piores instintos dos seus adversários.

Os efeitos no clima também foram imediatos: já há menos gelo no planeta. Está a ser gasto nas cabeças dos jornalistas apoiantes de Clinton.

Brigde orev truoble wetar
A Câmara Municipal de Lisboa resolveu assinalar a eleição de Donald Trump com um cartaz sarcástico sobre o muro que o novo presidente americano prometeu construir na fronteira com o México.

É mais um duro ataque a Trump. Para fazer pouco da conhecida ignorância dos apoiantes de Trump, tem o erro ortográfico: escreveram "brigde" em vez de "bridge". Além disso, tem também gramática duvidosa: "we call it Lisbon" devia ser "it’s called Lisbon", uma vez que Lisboa é Lisboa para toda a gente. Não se chama Lisboa para nós, enquanto para os outros é, sei lá, Bragança.

Só há um grupo muito restrito de pessoas que chamam outra coisa a Lisboa. É constituído por Fernando Medina e pelos seus colegas camarários que, pelos vistos, lhe chamam "o nosso recreio".

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