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José Diogo Quintela

Boa boca ou má educação

Antes, dizer ‘não gosto’ era ser malcriado. Agora, é ser consciencioso. Percebe-se.

José Diogo Quintela 25 de Março de 2017 às 00:30
Pela segunda vez na minha vida, paguei a uma rapariga fantasiada de Cinderela para se fechar numa sala a entreter um grupo de foliões, durante duas horas. A primeira vez foi uma despedida de solteiro, desta feita foi o aniversário da minha filha. Significa que a minha vida está num plano íngreme. Só não sei se a subir, se a descer. Ao entregar uma das crianças ao pai, ocorreu o seguinte diálogo:

Eu – O Quim portou-se muito bem. Comeu tudo.
Pai do Quim – Ai, eu sou um mau pai? Vamos embora, Joaquim. A tua mãe tem a quinoa ao lume.

Antigamente, uma criança que comia tudo era bem-educada. Agora, se não tem uma restrição alimentar qualquer, é porque os pais não lhe ligam. Se não há ali uma intolerância à cenoura, uma alergia a coentros ou uma reacção epidérmica ao esparguete al dente, das duas, uma: ou é vítima de maus-tratos, ou é uma espécie de Tarzan, criado por bichos. Uma criança que se desloca sem o seu próprio saco intravenoso de corticoides, para o caso de ter urticária, tem de ser intervencionada pela Segurança Social.

Quando o almoço em casa da minha avó era favas, eu juntava tudo num bolo alimentar e trabalhava-o nas bochechas, desbastando-o com língua e dentes, até ficar uma esfera polida, sem sabor nem consistência, que deglutia empurrado com TriNaranjus. E, se me oferecessem mais, repetia. Fora de questão dizer que não gostava.

Hoje, bastava-me informar que era intolerante a leguminosas e ainda me davam os parabéns por ser tão cauteloso. "Dá gosto vê-lo comer com tantas restrições!", diria a minha avó. O ‘esquisitinho’ de antanho é a moderna criança ideal. Antes, dizer ‘não gosto’ era ser malcriado. Agora, é ser consciencioso. Percebe-se. Uma criança que não gosta de queijo é niquenta, uma que é intolerante à lactose é enferma, coitadinha. Uma é maçadora, a outra padece de coisas. Mas, no fim do dia, o vomitado de uma criança com nojo de queijo e o de uma talvez alérgica a talvez derivados do talvez leite, deixa o mesmo aroma azedo.

A restrição alimentar é a antiga bola de cauchu: não parei de chatear os meus pais até me arranjarem uma. Basta escolher da roda dos alimentos restritos. À conta disto, as competições entre mães evoluíram. Onde outrora cotejavam os feitos das crianças, quem começou a falar mais cedo, quem já soletra, agora concorrem para ver quem é superior ao nível de restrições alimentares.

Mãe 1 – O filho da Sandra tem 11 alergias e 7 intolerâncias.
Mãe 2 – Que sorte! O meu já não come trigo.
Mãe 1 – Só agora? O meu nunca papou. Só de ouvir falar em trigo incha-lhe a glote.
Mãe 3 – Um dia o meu entrou em choque anafilático porque mordeu um colega que come pão.
Mãe 2 – Colegas que comem pão!?
Mãe 3 – Os pais são estranhos. Às vezes vão ao McDonald’s. Foi convidado a sair da escola.

DITOS JORNALISTAS
Ao nível de polémicas histéricas, 5 dias é uma eternidade. Daí já não ir a tempo de comentar o caso do rude holandês. Resta-me comentar os comentários. Destaco dois. No DN, Paulo Baldaia escreve: ‘A ideia de que vamos continuar a ter o socialista (!?) Jeroen Dijsselbloem (…)’

Já Luísa Meireles, na newsletter do ‘Expresso’, diz: ‘Dijsselbloem, dito membro do Partido Trabalhista (…)’. Ou seja, o director do DN (?!) e a dita redactora principal do ‘Expresso’ acham que um palerma não pode ser de esquerda. Gastamos em vinho e mulheres, mas pelos vistos sobra algum para esbanjar em dito jornalismo.

VOU LEVAR DODOTS PARA O GABINETE DE VOTO
Pergunta à Comissão Nacional de Eleições: posso levar um pacote de Dodots quando for votar? É que moro numa zona burguesa de Lisboa, o que significa que na minha vizinhança há imensas feministas de classe média-alta. A feminista de classe média-alta pugna pela eleição de mulheres para cargos políticos.

E, nas próximas autárquicas, têm duas candidatas em quem votar. Se, no seguimento do que preconizaram nas eleições americanas, insistirem no slogan ‘votar com a vagina’, vou querer um toalhete para poder votar em condições de higiene.

SOL EM TEIXOSO, CHUVA NA CITY
O Tribunal Constitucional confirmou que os administradores da CGD têm de entregar as declarações de rendimentos, mas isso não chega. O Presidente da Caixa devia ser também obrigado a entregar um atestado psiquiátrico a certificar de que tem dupla personalidade, condição essencial para quem precisa de duas caras para administrar o banco.

Uma, capitalista, para ir à City dizer que a CGD vai ser gerida com profissionalismo e atenção ao dinheiro dos investidores.

A outra, socialista, para acalmar a esquerda e garantir que mantém abertos balcões com trinta funcionários em povoações de dez habitantes. Paulo Macedo protagoniza o ‘Estranho Caso do Dr. Macedo e o Sr. Paulo’. De dia, o querido líder que vela pela população de Teixoso; de noite, um estafermo que não deixa a Caixa falir. 
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