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José Diogo Quintela

Carta aberta a Mariana Mortágua

Há dois tipos de portugueses que não querem novos ricos: os radicais de esquerda e os velhos ricos.

José Diogo Quintela 24 de Setembro de 2016 às 01:46
Cara Mariana, antes de mais, peço desculpa pela informalidade. O seu nome completo tem muitas letras e eu preciso de poupar palavras para ter espaço para os elogios. É a excepção em que a poupança é boa. Espero que receba esta carta aberta. Se não responder, enviarei então um extracto de conta aberto. Esse, de certeza que o lê.

Quero oferecer-lhe o meu apoio. Os protestos contra si nascem de um equívoco. Há quem se indigne por uma especialista em Economia dizer o que a Mariana tem dito. Só que a Mariana não é especialista em Economia. É especialista em economias. Obviamente, está habilitada a fazer com as nossas o que bem lhe apetecer. Por mais que a oposição grite, não a considero uma fanática. A Mariana é uma moderada que aceita que os portugueses ponham dinheiro em bancos. Tanto que ainda há dias incentivou a que metamos 5 mil milhões na Caixa.

Agora, é natural que a Mariana desvalorize a poupança. Poupar é para quem não sabe o que vai ser o amanhã. E a Mariana sabe perfeitamente o que é que o amanhã vai ser: cantor. Quando o amanhã cantar, não vai ser preciso poupar, porque não vai haver nada onde gastar.

E já percebi porque é que a Mariana não aprecia investir. É que ‘investir’ é ‘in’ mais ‘vestir’. Ou seja, o oposto de vestir. Que é despir. E despir é mau, porque chegou o Outono e uma pessoa sem roupa constipa-se. Obrigado, Mariana, por simplificar a Economia tal como o Gustavo Santos simplifica a Filosofia.

É injusta, a sua fama de antagonizar partes da sociedade. Quando diz que não quer mais ricos, a Mariana não está a dividir os portugueses. Pelo contrário, está a uni-los. É que há dois tipos de portugueses que não querem novos ricos: os radicais de esquerda e os velhos ricos. Os primeiros por religião, os segundos porque apreciam exclusividade. Se qualquer um pode poupar para ser rico, os que já são ricos desinteressam-se. Os ricos são hipsters do dinheiro. A Mariana tornou-se na porteira do clube dos portugueses com fortuna (uso aqui ‘fortuna’ no duplo sentido de abastança e de sorte. Hoje, em Portugal, para conseguir amealhar é preciso ter sorte).

Estou consigo. Também desconfio de pessoas que acumulam muito dinheiro. Acabam a fazer patifarias. Nem de propósito, Mark Zuckerberg anunciou que vai dar 3 mil milhões de dólares para curar todas as doenças infantis. Bandido egoísta! Então e os pediatras que perdem o emprego? Ah! Pudesse a Mariana deitar-lhe a mão…

Sonho com o dia em que Mariana lidere o país. Imagino-a como piloto do avião Portugal. De certeza que, se apanhássemos uma tempestade, a Mariana largaria os comandos e iria para a cabine ordenar aos passageiros da 1ª classe que se juntassem aos de económica, para que morrêssemos todos com o mesmo nível de conforto. É de líderes como a Mariana que precisamos. Bem haja.

Poupadores malévolos de antanho
De 1888 a 1891, Londres viveu aterrorizada por um malfeitor desconhecido. Durante as noites, vagueava anónimo pela cidade, à caça de incautos empregadores que lhe dessem trabalho. Ganho o pecúlio, este malandro não o gastava, poupava-o. Quando juntava uma soma apreciável, adquiria casas devolutas, recuperava-as e vendia-as. Ou fazia uma viagem. Ou, simplesmente, guardava para quando fosse preciso. Os londrinos estavam apavorados. Quem era este facínora que aforrava cruelmente? Que malvadez o impelia a amealhar? Começaram a chamar-lhe Jack, o Acumulador.

Espelho meu, há alguém mais comunista do que eu?
O PCP a repreender o Bloco por se ter precipitado no anúncio de medidas é como o velho tarado que avisa o jovem tarado para não abrir a gabardina antes de chegar à frente das velhotas. Vê-los a competir em anti-capitalismo lembra os irmãos Guedes à bulha para ver quem é o mais bonito.

Segundo o PCP, ‘andam uns a juntar com o bico e outros a espalhar com as patas’. O que faz deste Governo, não uma geringonça, mas uma galinha. Confere: o seu nascimento foi um choque e, mesmo sem cabeça, continua a correr sem destino.

Sócrates volta a ser ouvido sem ser por um juiz
Quando Ana Gomes, que defendia terroristas a caminho de Guantánamo, recusa defender Sócrates, é sinal que o prestígio do ex-PM decaiu junto de uma parte dos militantes socialistas. Mas só da parte dos que se chamam Ana Gomes. Junto da outra, permanece.

Sócrates foi ontem à Universidade de Verão do PS. 
Vários aspectos bizarros: i) estamos no Outono; ii) o dia em que JS costuma ir à Universidade é o Domingo; iii) os socialistas tanto aplaudem quem quer ir às poupanças de milhões de portugueses, como quem foi aos milhões das poupanças de um português.

Sócrates orou sobre Globalização. Sabendo do périplo que o seu dinheiro fez, de Angola a Paris, é óbvio que é um perito. Ouvi-o falar das grandes correntes económicas, de Keynes a Hayek. Estranhamente, não falou de Alves dos Reis.

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