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José Diogo Quintela

Dos malucos reza a história

Resumindo, tudo o que de relevante aconteceu no mundo foi obra de chalupas.

José Diogo Quintela 30 de Julho de 2016 às 01:45
Não quero parecer um daqueles velhos que, baseados em sensações e aldrabados pelas memórias de infância, dizem "no meu tempo a escola era mais difícil", mas no meu tempo a escola era mais difícil.

Já não é só o Português, que, com o acordo ortográfico, é uma espécie de língua bufê, em que cada aluno escreve como quer, porque é uma excepção. Ou exceção. Ou xéssão. Ou cépeção. Ou chessão. Também não é só a Matemática, em que as contas dão resultados diferentes consoante a inclinação política do economista.

Agora, o facilitismo chegou à História. Desde que começou a vaga de atentados islâmicos na Europa a justificação para qualquer acto marcante passou a ser a loucura. Explode-se num festival? Pudera! Pois se era doido varrido. Usa uma vintena de cidadãos como pedra de amolar? Faltavam-lhe parafusos, por causa de amor. Joga bólingue humano com um camião TIR? Os malucos são assim, destravados.

Se o que motiva acções são os distúrbios psíquicos, aprender História tornou-se muito mais fácil. Esqueçam fontes directas, testemunhos coevos ou escavações arqueológicas: os acontecimentos históricos têm de ser analisados é com o DSM-V, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, publicado pela Associação Americana de Psiquiatria. Fora com o Oliveira Marques, queremos o Sigmund Freud. Qual materialismo histórico, qual carapuça! O gasóleo do motor da História não é a luta de classes, são as pessoas chanfradas.

Afonso Henriques? Distúrbio obsessivo-compulsivo que o levava a coleccionar terras. D. Pedro IV? Vítima de bullying. O Marquês de Pombal? Síndrome de stress pós-traumático, depois do terramoto.

As Guerras Púnicas foram o resultado da homossexualidade recalcada de romanos e cartagineses. As migrações dos povos bárbaros sucederam porque eram todos maníaco-depressivos. A Crise de 1383/85 aconteceu por causa de um fenómeno de alucinação colectiva. A Peste Negra não passou de hipocondria geral. A Revolução Industrial, uma onda de esquizofrenia em Inglaterra.

Átila, o Huno, era bipolar. Platão era psicótico. Colombo era anoréctico. Napoleão ouvia vozes. Júlio César era anti-social. Lenine tinha transtorno de identidade de género. Jesus Cristo, personalidade múltipla. Darwin era histérico. Henrique VIII era depressivo. Hitler tinha ataques de pânico. D. João V era claustrofóbico. Resumindo, tudo o que de relevante aconteceu no mundo foi obra de chalupas.

Talvez não fosse má ideia publicar uma nova edição d’Os Lusíadas. Mudava-se o título para Os Doidivanas e explicava-se a história de Portugal até aos Descobrimentos como uma série de acções aleatórias levadas a cabo por lunáticos. Uma mistura entre a épica gesta dos portugueses e o Voando Sobre um Ninho de Cucos. Os Malucos do Riso em decassílabos.

José Sócrates veio à tona
Para dizer que vai processar o estado. Parece-me bem. Se processa o Estado, vai ter de pagar taxa de justiça, custas processuais e outras despesas. É uma forma, ainda que insignificante, de começar a devolver ao Estado o que tirou. Claro que, para chegar aos 23 milhões, vai ter de processar muitas vezes o Estado. Que comece já.

Sócrates anunciou também que vai pedir a subvenção vitalícia para ex-políticos, por não ter meios de subsistência. Restaura-se a minha fé na justiça portuguesa se José Sócrates vier a ser vitaliciamente vestido, alimentado e alojado pelo Estado.

José Sócrates e Hillary Clinton, almas gémeas
Sócrates comparou-se ainda a Hillary Clinton. Não é surpresa nenhuma: Sócrates já se tinha comparado a Mandela ou a Luaty Beirão. Confirma-se que não percebe lá muito sobre símiles, já que também achava que fotocópias era dinheiro.

A única coisa que Sócrates tem em comum com essas pessoas é o facto de ninguém poder ser considerado engenheiro. De resto, só consigo encontrar uma semelhança entre Sócrates e Hillary, ao nível dos ossos frontais do crânio. Sócrates tem um testa de ferro, Hillary tem a testa ornada com marfim.

Profissão: escanção de terrorismo
Não admira que o desemprego desça: nos últimos tempos apareceu uma nova profissão a dar trabalho a portugueses. Trata-se do ofício de escanção de terrorismos, alguém que degusta cada atentado, para ver se foi perpetrado por um terrorista islâmico legítimo, um terrorista DOP, ou se de contrafacção. O escanção de terrorismo sabe a diferença entre um atentado champanhe e um mero ataque com método champanhês.

O homicida tem diploma da Academia do Daesh? Deixou formulário em três vias, assegurando que mata em nome de Alá? Tem as quotas em dia? O Clube do Bombista é uma agremiação que leva a burocracia muito a sério.

Se estiverem reunidos os requisitos, o snob da jiade certificará o atentado. Caso contrário, é um mero ataque, por acaso efectuado por um muçulmano que grita ‘Allahu Akbar’.
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